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ED 006

Trocar a resposta na revisão acerta mais do que erra

Kruger corrigiu 1.561 provas e contou o que acontece com cada rasura: o primeiro instinto perde para a segunda leitura.

Folha de respostas com uma marcação rasurada e um lápis com borracha ao lado, sem pessoas.

A rasura que decide a questão

 

Afrase circula em cursinho, em grupo de estudo e na boca de quem já passou: na dúvida, fique com a primeira resposta. Ela soa sábia, tem cara de experiência acumulada e quase ninguém pede a fonte. É provavelmente o conselho mais repetido da história das provas objetivas.

Também é falso, e o mais curioso é que ele nasce de um jeito muito específico de lembrar. Quando você troca uma resposta certa por uma errada, a memória grava a cena inteira: a rasura, a hesitação, o gabarito confirmando o estrago. Dói e fica.

Quando você troca uma errada por uma certa, não acontece nada memorável. O item apenas aparece verde na correção, sem cena, sem culpa, sem história para contar ao colega no corredor. O acerto recuperado some do registro.

O resultado é um placar mental construído só com as derrotas. Você lembra de quatro vezes em que a borracha te custou pontos e de nenhuma vez em que ela te salvou, e conclui, com toda a sinceridade do mundo, que trocar resposta é uma péssima ideia.

Existe um jeito de resolver a discussão sem depender da memória de ninguém: contar as rasuras. Pegar milhares de folhas de respostas reais, olhar cada marcação apagada, ver qual era a resposta antiga, qual era a nova e qual delas o gabarito aprovou.

Foi exatamente o que um grupo de pesquisadores fez em 2005, e o número que saiu de lá inverte o conselho de cursinho. A revisão que troca a resposta acerta com folga mais do que estraga, e a diferença não é pequena nem depende de sorte.

Só que existe um jeito errado de usar a informação. Sair da sessão de leitura decidido a revisar tudo e trocar o que soar estranho é a receita para queimar tempo e mexer no que estava certo por puro nervosismo.

O que funciona é uma regra combinada com você mesmo antes da prova começar: marcar a questão duvidosa no ato, seguir em frente sem olhar para trás, e na revisão abrir apenas as marcadas, com um critério escrito para decidir se muda ou mantém.

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I  A Técnica

Marque a questão duvidosa e volte só nas marcadas

Contadas uma a uma, as rasuras de mil e quinhentas provas dizem o contrário do que o cursinho ensina sobre o primeiro instinto.

Toda questão que você fecha com dúvida ganha um sinal na margem do caderno, e a revisão do fim só abre as questões que receberam esse sinal. É a técnica inteira, e ela cabe num símbolo.

A dúvida precisa ser registrada no momento em que existe. Depois de trinta questões, você não lembra mais quais foram tranquilas e quais foram apostas disfarçadas de certeza. A marcação captura um estado mental que evapora em poucos minutos.

Use dois sinais, não um. Um ponto de interrogação para a questão em que você hesitou entre duas alternativas e escolheu uma. Um traço para a questão em que você chutou sem base nenhuma e seguiu adiante.

A diferença entre os dois muda o que a revisão faz. Na questão de interrogação, você tem material novo para trabalhar: uma segunda leitura do enunciado costuma resolver a disputa entre as duas alternativas. Na questão de traço, não há o que reler, e mexer nela é trocar um chute por outro.

Não volte na hora. A tentação de resolver a dúvida imediatamente é grande e cara: você fica preso num item enquanto o cronômetro corre em cima dos outros, e sai do bloco com atraso acumulado.

A marcação não serve para lembrar da questão difícil, serve para impedir que você mexa em todas as outras.

O que sustenta a técnica é o que ela proíbe. Sem marcação, a revisão vira uma passada geral em que qualquer alternativa começa a parecer plausível na segunda leitura, e você mexe em questão que tinha fechado com certeza legítima.

Escreva a regra de decisão antes da prova, num papel, com suas palavras. Algo como: mudo a resposta quando encontro no enunciado uma palavra que eu tinha pulado, ou quando percebo que respondi outra pergunta. Fora dessas duas condições, mantenho.

Critério escrito antes vale mais que julgamento na hora. Faltando quarenta minutos, com o corpo cansado e a sala esvaziando, a sua capacidade de decidir com calma está no pior momento do dia, e ter um filtro pronto poupa exatamente a energia que já acabou.

Cuidado com a revisão movida a sensação. Se o motivo para mudar é que a alternativa antiga passou a soar estranha, o motivo não é bom: enunciado relido três vezes soa estranho por repetição, não por erro.

Treine a marcação em todo simulado, e não só na prova de verdade. O sinal na margem precisa virar automático a ponto de você fazer sem pensar, porque durante a prova a atenção que sobra para procedimentos é praticamente nenhuma.

 
 

II  O Dado

51% contra 25% na correção de Kruger

Justin Kruger, Derrick Wirtz e Dale Miller foram atrás das rasuras de verdade e contaram uma por uma, em vez de perguntar aos alunos o que eles achavam que tinha acontecido.

O trabalho saiu em 2005 no Journal of Personality and Social Psychology, com o título Counterfactual thinking and the first instinct fallacy. A parte central é simples de descrever: os pesquisadores examinaram folhas de respostas de 1.561 alunos de uma prova de múltipla escolha e localizaram cada marcação apagada e refeita.

Para cada rasura, três informações: qual era a resposta original, qual foi a resposta final e o que o gabarito dizia. Daí sai o placar completo das trocas, sem depender de ninguém lembrar de nada.

Trocas de errada para certa51%
Trocas de certa para errada25%
Trocas de errada para outra errada23%
Folhas de respostas analisadas1.561

A leitura do número é direta. Entre as trocas que mudaram o resultado da questão, mudar acertou duas vezes mais do que estragou. O conselho de cursinho recomenda exatamente a conduta que produz o pior placar.

"Despite the popular belief that one should stick with one's first instinct, changing answers is more likely to help than to hurt."

Justin Kruger, Derrick Wirtz e Dale T. Miller, Counterfactual Thinking and the First Instinct Fallacy, Journal of Personality and Social Psychology, 2005

A segunda parte do estudo explica por que quase todo mundo acredita no contrário. Os pesquisadores mediram a memória dos alunos sobre as próprias trocas, e a lembrança das mudanças que custaram ponto era muito mais forte que a das mudanças que renderam ponto.

O arrependimento é o mecanismo. Errar por ação dói mais que errar por omissão, então a troca que deu errado fica marcada como culpa pessoal, enquanto a troca que deu certo entra na conta genérica de ter estudado.

O achado não é isolado nem recente. Ludy Benjamin, Timothy Cavell e William Shallenberger revisaram em 1984, no Teaching of Psychology, dezenas de estudos sobre mudança de resposta em prova, e o padrão se repetia com consistência incomum para pesquisa da área.

Também vale registrar o que os dados não dizem. Eles não dizem que mudar é sempre bom: 23% das trocas foram de uma errada para outra errada, ou seja, quase um quarto do esforço de revisão não produziu nada além de rasura.

E a média esconde uma diferença que interessa ao candidato. A vantagem de mudar aparece com força quando existe motivo novo, uma releitura que mudou o entendimento do enunciado, e some quando a mudança nasce de nervosismo puro no fim do tempo.

Por isso o dado sozinho é perigoso. Ele desmonta a superstição do primeiro instinto, mas quem sai dele achando que deve revisar tudo e mudar bastante está trocando uma crença ruim por outra igualmente cara.

 
 

III  Na Prática

Monte a revisão em duas passadas

Passo 1, definir os dois sinais: antes de começar, escreva no alto da folha de rascunho o que cada marca significa. Interrogação para hesitação entre duas alternativas, traço para chute sem base. Nada além desses dois.

Passo 2, escrever a regra de mudança: ainda antes da primeira questão, anote as condições em que você aceita trocar. Duas bastam: encontrei uma palavra do enunciado que tinha pulado, ou percebi que estava respondendo outra pergunta.

Passo 3, reservar o tempo da segunda passada: separe uma fatia fixa do cronograma para a revisão das marcadas, algo em torno de 10% do tempo total da prova, e proteja essa fatia como se fosse um bloco de questões.

Na primeira passada, responda tudo e marque a dúvida sem parar. A regra é seguir em frente mesmo com a sensação de trabalho inacabado, porque parar para resolver dúvida na hora é o que devora o tempo da revisão.

Na segunda passada, abra apenas as questões com interrogação. Releia o enunciado inteiro, procure a palavra que muda o sentido e compare com a alternativa que você marcou. Se a regra escrita autorizar, troque. Se não, mantenha e siga.

Deixe as questões de traço para o fim, e mexa nelas apenas se sobrar tempo depois das outras. Chute revisado continua sendo chute, e a chance de melhorar é pequena demais para consumir o tempo que a questão de interrogação aproveita muito melhor.

Não faça uma terceira passada. A partir da terceira leitura, todas as alternativas ficam plausíveis, o cansaço já derrubou o critério e as mudanças passam a nascer de ansiedade, que é justamente a fonte das trocas de errada para outra errada.

Registre as suas próprias rasuras em cada simulado. Anote no fim quantas trocas você fez, quantas foram de errada para certa e quantas de certa para errada. Em três simulados você passa a ter o seu placar pessoal, e não o placar de um estudo com estranhos.

Compare o seu número com o do estudo. Se as suas trocas estão acertando menos que as de Kruger, o problema quase nunca é o ato de trocar, é o critério: você provavelmente está mudando por sensação, e não por informação nova encontrada no enunciado.

Guarde o registro das mudanças por matéria também. É comum descobrir que a revisão rende muito em interpretação de texto e legislação, onde reler o enunciado devolve informação, e rende pouco em cálculo, onde o erro está na conta e não na leitura.

E preencha o gabarito depois da segunda passada, nunca antes. Transcrever cedo e depois apagar bolha no cartão é o jeito mais caro de aplicar uma técnica que existe para economizar tempo e pontos.

"Quantas das suas rasuras no último simulado terminaram em acerto?"

 
 
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ED 008 · amanhã às 17:17

Escrita antes da prova

 
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