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ED 031
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O treino extra que não sobrou no fim do mês

Rohrer e Taylor mediram em 2006 que triplicar a prática de uma lista de matemática já dominada não mudou a lembrança quatro semanas depois.

Lista de exercícios de matemática resolvida à mão sobre mesa escura, lápis apontado ao lado, luz focal quente, sem pessoas.

A lista de exercícios repetida até o fim do bloco

 

Uma em 60. Era a chance de acertar no chute quantas ordens diferentes cabem em cinco letras tomadas três a três, e nenhum estudante da sala precisou chutar: todos tinham acabado de aprender a fórmula de permutação (a conta que diz de quantas maneiras um grupo pode ser ordenado) e todos acertaram o exercício de aquecimento.

A decisão que vem depois desse acerto é a mais silenciosa da sua semana de estudo. O tópico saiu certo duas vezes seguidas, o caderno está aberto, o assunto está quente, e continuar resolvendo mais cinco questões parece o movimento óbvio de quem leva a preparação a sério.

O nome técnico dessa continuação é sobreaprendizado (praticar além do ponto em que você já acerta). Ele dá uma sensação de fluência que nenhum outro tipo de sessão entrega: a mão anda sozinha, o tempo por questão cai, e você fecha o bloco com a impressão limpa de que fixou aquele conteúdo de uma vez.

A prova não acontece no fim do bloco. Ela acontece semanas depois, quando o assunto voltou ao fundo da pilha e precisa ser recuperado sem aquecimento nenhum, no meio de uma legislação que você estudou no mês passado e de um cálculo que você viu em março.

Doug Rohrer e Kelli Taylor publicaram em 2006, na Applied Cognitive Psychology, o experimento que mede exatamente esse intervalo. Um grupo de universitários resolveu três exercícios de permutação depois de aprender a fórmula; outro grupo resolveu nove, o triplo, na mesma sessão e com o mesmo professor.

Quatro semanas depois, os dois grupos acertaram praticamente o mesmo tanto no teste final. O triplo de exercícios rendeu vantagem no teste de uma semana, e a vantagem tinha evaporado no mês seguinte, que costuma ser o prazo real entre a sua sessão de hoje e a data da prova.

O tempo gasto nas seis questões extras não sumiu do universo: ele saiu de algum outro tópico do seu edital, provavelmente o que você mais evita. E existe uma versão desse mesmo tempo que sustenta a lembrança quatro semanas depois, testada no mesmo laboratório.

A pergunta prática fica sendo quando parar de resolver a questão que você já domina, e com qual critério objetivo, sem ficar negociando com a sensação de fluência.

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I  A Técnica

Duas certas seguidas e o bloco fecha

A terceira questão certa compra conforto, nunca lembrança.

O bloco de um tópico dominado termina em duas resoluções corretas seguidas, feitas sem consultar a fórmula e sem olhar o gabarito no meio, e o tempo que sobra vai inteiro para o tópico em que você errou na última simulada. A terceira questão certa não acrescenta lembrança; acrescenta conforto.

O critério precisa ser numérico porque a fluência mente. Depois da quinta questão parecida, o seu cérebro reconhece o padrão do enunciado e resolve por reconhecimento, sem executar o raciocínio completo, e a velocidade que você sente é a do reconhecimento, jamais a da recuperação.

Duas certas seguidas exigem duas condições. A fórmula fica fora de vista durante a tentativa inteira, e a conferência acontece só depois de você registrar a resposta no papel. Espiar o formulário no meio do caminho transforma a questão em cópia guiada e zera a contagem.

Cronometre o corte com um marcador simples. Quando a segunda certa sair, escreva no canto da página o nome do tópico e a data, feche o bloco e abra o próximo item da lista, mesmo que falte meia hora do horário que você reservou para aquele assunto.

O que fazer com o tempo que sobrou

A meia hora liberada tem destino fixo, e ele não é o tópico seguinte da ordem do edital. Ela vai para o assunto com a pior taxa de acerto na sua última simulada, porque é lá que trinta minutos ainda compram muita lembrança.

Um tópico dominado volta depois, e volta espaçado. Agende a revisita dele para dez ou quinze dias adiante, com três questões novas, nunca com as mesmas seis que você resolveria hoje na sequência. O intervalo faz o trabalho que a repetição imediata não faz.

"O sobreaprendizado produziu um efeito substancial no teste de uma semana e nenhum efeito detectável no teste de quatro semanas."

Doug Rohrer e Kelli Taylor, Applied Cognitive Psychology, 2006

Existe uma exceção que vale reconhecer. Conteúdo que você vai executar sob pressão de relógio na prova, como cálculo de juros compostos ou conversão de unidades, aceita um bloco a mais de automatização, porque ali a velocidade da mão também é nota.

Fora dessa exceção, o sinal de alerta é a facilidade. Se a quarta questão do bloco saiu mais rápida e mais tranquila que a primeira, você atravessou a fronteira do aprendizado e entrou na zona do aquecimento, e o cronômetro segue correndo do mesmo jeito.

A objeção legítima aparece aqui: será que duas certas seguidas bastam mesmo, ou o corte é agressivo demais? O experimento de 2006 respondeu com números, e o desenho dele cabe em poucos parágrafos.

 
 

II  O Dado

Nove exercícios de contagem e um teste de quatro semanas

Doug Rohrer e Kelli Taylor publicaram em 2006, na Applied Cognitive Psychology, um experimento em que universitários aprenderam a resolver problemas de permutação e depois praticaram três ou nove exercícios: no teste aplicado uma semana depois o grupo dos nove foi melhor, e no teste aplicado quatro semanas depois os dois grupos empataram.

A sessão começava igual para todo mundo. Um tutorial escrito ensinava a fórmula de contagem de arranjos, com dois exemplos resolvidos passo a passo, e em seguida vinha o bloco de prática com correção imediata a cada questão respondida.

A manipulação estava no tamanho do bloco. Metade dos participantes resolveu três problemas; a outra metade resolveu nove, do mesmo tipo e no mesmo intervalo de tempo de sessão. Todos foram embora tendo acertado o conteúdo e tendo recebido o gabarito de cada tentativa.

EstudoDoug Rohrer e Kelli Taylor, Applied Cognitive Psychology, 2006
Título originalThe effects of overlearning and distributed practise on the retention of mathematics knowledge
Desenhouniversitários aprenderam a fórmula de permutação e praticaram três ou nove exercícios do mesmo tipo, com teste final sorteado para uma ou quatro semanas depois
Medidaproporção de problemas resolvidos corretamente no teste final
Efeito medidoo triplo de prática rendeu vantagem no teste de uma semana e nenhuma vantagem no teste de quatro semanas

O detalhe que muda a leitura está no sorteio do intervalo. Cada participante fazia um único teste final, e o dia desse teste era definido pelo laboratório, então ninguém estudou com a data na cabeça nem revisou por conta própria antes de ser cobrado.

Os mesmos pesquisadores testaram no estudo uma segunda variável, e ela rendeu o resultado oposto. Quando as questões de prática foram espalhadas em duas sessões separadas por uma semana, em lugar de empilhadas numa tarde só, o acerto no teste de quatro semanas subiu de forma clara.

Juntando as duas metades, o achado fica com uma direção prática nítida: aumentar a quantidade de prática imediata comprou pouco, e espalhar a mesma quantidade no calendário comprou muito. O total de questões resolvidas foi idêntico nos dois arranjos.

Vale reconhecer o limite do desenho. Era um tópico único de matemática, ensinado por tutorial escrito a universitários voluntários, com dois intervalos de teste e sem a pressão de uma banca, longe de um edital com legislação, jurisprudência e interpretação de enunciado capcioso.

O que atravessa para a sua mesa é a direção do achado. A questão repetida enquanto o assunto ainda está quente devolve pouco no prazo que interessa, e a mesma questão resolvida dez dias depois devolve bem mais.

 

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III  Na Prática

Onde colocar os quarenta minutos que sobraram

Passo 1, feche o bloco na segunda certa seguida: anote o tópico e a data no canto da página, com a fórmula fora de vista durante as duas tentativas, e pare mesmo que o horário reservado para aquele assunto ainda tenha meia hora pela frente.

Passo 2, mande o tempo liberado para a pior taxa da sua última simulada: abra a planilha de acertos por matéria, pegue o tópico do fim da lista e gaste ali os minutos que sobraram, sem passar pelo assunto seguinte da ordem do edital.

Passo 3, agende a revisita para dez a quinze dias: escreva o tópico fechado numa lista de retorno com a data de volta ao lado, e cobre três questões novas naquele dia, nunca as mesmas que você resolveria hoje em sequência.

Monte a lista de retorno como uma agenda simples de duas colunas, tópico e data, com no máximo uma página. Uma lista maior do que isso mostra que você está fechando blocos rápido demais e acumulando revisitas que não cabem na semana.

Reserve uma sessão de conferência por mês para os tópicos já fechados. Sorteie cinco deles, resolva uma questão de cada sem aquecimento e sem consultar nada: acerto abaixo de quatro em cinco avisa que o seu critério de fechamento precisa de uma terceira certa seguida.

Para conteúdo de lei seca, troque a repetição pela variação de enunciado. Resolva a mesma regra cobrada de três formas diferentes, com a redação invertida numa delas, porque a banca cobra o dispositivo por ângulos que a sua repetição literal nunca apresenta.

Vigie o placar de horas por matéria na sua semana. Quando uma matéria que você já domina aparece com mais horas do que a matéria em que você vai mal, o motivo costuma ser o conforto da fluência, quase nunca uma necessidade real de treino.

Nas duas semanas antes da prova, o critério muda de forma deliberada. O corte de duas certas seguidas dá lugar ao corte por tempo, quinze minutos por tópico, porque nessa altura a prioridade passa a ser cobrir o edital inteiro uma vez a mais.

"Quantas horas da sua semana foram para o tópico que você já acerta de olhos fechados?"

Confira hoje, na sua própria semana de estudo:

quantas questões você resolveu depois da segunda certa seguida em cada bloco;

quantos tópicos fechados têm data de revisita escrita em algum lugar;

quantas horas a matéria da sua pior taxa recebeu desde a última simulada.

 
 
 
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Quiz da edição

No experimento de Rohrer e Taylor (2006) com estudantes universitários que aprenderam a fórmula de permutação, quantos exercícios o grupo do sobreaprendizado resolveu na mesma sessão?

A3
B6
C9
D12

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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