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ED 013

Catorze noites de seis horas custam duas em claro

Van Dongen e Dinges mediram em 2003 quanto o desempenho cai depois de duas semanas dormindo seis horas, sem que a pessoa perceba.

Quarto escuro com o despertador marcando a madrugada, a apostila aberta na cama e a luminaria ainda acesa, sem pessoas.

A conta da noite feita à uma da manhã

 

Uma da manhã, o candidato fecha a apostila e calcula a noite pelo relógio do celular. Se dormir agora e acordar às sete, sobram seis horas, e seis horas sempre deram conta. Ele repete a conta na terça, na quarta, na quinta, e a semana inteira termina com o mesmo número na cabeceira.

A conta parece inofensiva porque o corpo não cobra na manhã seguinte. Você acorda, toma café, senta na mesa, resolve questões, entende o que lê. Nada trava. A sensação de estar funcionando bem é honesta, e é exatamente ela que sustenta a decisão de repetir o corte na noite seguinte.

O problema é que a sensação e o desempenho param de andar juntos. Depois de alguns dias, a pessoa continua se avaliando mais ou menos como no primeiro dia, enquanto os resultados medidos em teste seguem descendo em linha reta. A avaliação interna congela; a queda não.

O corte também não se comporta como despesa isolada. Perder duas horas numa noite específica cria um prejuízo que passa. Perder duas horas toda noite cria um saldo que se soma, e o décimo quarto dia carrega o peso dos treze anteriores, não apenas o da véspera.

Um grupo de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia trancou voluntários num laboratório por duas semanas para medir esse acúmulo com relógio, câmera e teste diário. Eles fixaram o tempo na cama de cada grupo, testaram todo dia no mesmo horário e compararam o resultado com o de outro grupo, mantido sem dormir nada por três noites seguidas.

O número que saiu dessa comparação muda a forma de montar a semana de estudo, porque coloca a rotina de seis horas ao lado de um estado que qualquer concurseiro reconhece como ruim. E o que separa os dois é justamente a percepção de quem está dentro.

A técnica que sai daí não é dormir mais quando der. É tratar a hora de deitar como parte do cronograma, com o mesmo peso de um bloco de revisão.

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I  A Técnica

Marque a hora de deitar antes de marcar a matéria

O horário de dormir entra no cronograma primeiro, e a matéria se acomoda no que sobra.

Defina a hora de dormir como compromisso fixo da semana e monte o cronograma de estudo dentro do que sobra, nunca o contrário. A hora de deitar entra no papel primeiro, e a matéria se acomoda no espaço restante.

A ordem importa porque o sono é a variável que sempre cede. Quando o cronograma nasce da lista de matérias, a última hora do dia vira sempre a que se estica, e o corte cai na noite por padrão, sem ninguém decidir nada.

Comece pelo horário de acordar, que costuma ser rígido por causa do trabalho ou da prova. Conte sete horas e meia para trás e você tem a hora de apagar a luz. Conte mais quarenta minutos e você tem a hora de fechar o material.

Os quarenta minutos entre fechar o material e apagar a luz não são folga. São o tempo em que a cabeça sai do modo de resolver questão, e cortar esse pedaço é o que produz meia hora rolando na cama depois, com o enunciado ainda girando.

A hora de deitar é a primeira linha do cronograma, não a sobra dele.

Trate a meta como faixa, não como ponto. Sete a oito horas de tempo na cama dá margem para a noite ruim ocasional, e uma meta rígida de oito em ponto cria a frustração de descumprir a própria regra toda semana.

Não use o fim de semana como caixa de compensação. Dormir onze horas no sábado depois de cinco noites de seis não zera o saldo, e ainda desloca o horário de dormir do domingo, o que estraga a segunda de manhã.

O ponto mais difícil da técnica é aceitar a troca visível. Você vai fechar o material com uma matéria a menos estudada na noite, e vai sentir a falta dela na hora. O ganho vem no dia seguinte e no décimo quarto, distribuído por todos os blocos, e por isso quase não aparece como ganho.

A troca justa fica clara quando se compara o mesmo material nas duas condições. Uma hora extra de leitura com a cabeça arrastando entrega menos que a hora inteira do dia seguinte com o sistema descansado, e o teste que mede a diferença já foi feito.

Cuidado com a régua da sensação. Se você usa o próprio julgamento para decidir se pode cortar mais uma noite, o julgamento vai dizer que sim, porque ele para de acompanhar a queda depois de poucos dias.

Ancore a hora de dormir num gatilho concreto, não na força de vontade. Alarme de encerramento no celular, luz do escritório apagada, aparelho no carregador longe da cama: o gatilho precisa ser algo que aconteça sem você decidir de novo.

 
 

II  O Dado

Duas semanas de seis horas alcançam duas noites em claro

Hans Van Dongen, Greg Maislin, Janet Mullington e David Dinges publicaram em 2003 o experimento que mediu o efeito acumulado de dormir pouco por catorze noites seguidas.

O trabalho saiu na revista Sleep com o título The Cumulative Cost of Additional Wakefulness, e o desenho é o que dá força ao resultado: os participantes ficaram internados no laboratório, com o tempo na cama controlado, e foram testados todo dia no mesmo horário.

Os voluntários adultos saudáveis foram distribuídos em três grupos de tempo na cama: quatro horas, seis horas ou oito horas por noite, durante catorze noites consecutivas. Um quarto grupo passou três noites sem dormir nada, para servir de referência do que é privação total.

O teste principal era o Psychomotor Vigilance Task, uma tarefa de atenção sustentada em que a pessoa aperta um botão assim que um estímulo aparece na tela. Ele conta lapsos, que são as respostas que demoram demais ou não vêm, e não depende de conhecimento nem de motivação.

Duração do protocolo14 noites
Grupos de tempo na cama4, 6 e 8 horas
Grupo de comparação3 noites sem dormir
Ambientelaboratório, com o sono controlado
Medida principallapsos de atenção no teste diário

O grupo de oito horas manteve o desempenho estável do primeiro ao último dia. Os grupos de seis e de quatro horas caíram de forma contínua, sem estabilizar em nenhum momento do protocolo, e a queda seguia em curso quando o experimento terminou.

O ponto que dá nome à edição está na comparação entre os grupos: ao fim das catorze noites, o desempenho de quem dormiu seis horas por noite alcançou o patamar observado no grupo que passou até duas noites inteiras sem dormir.

"A restrição crônica do sono a seis horas ou menos por noite produziu déficits cognitivos equivalentes a até duas noites de privação total de sono."

Hans Van Dongen, Greg Maislin, Janet Mullington e David Dinges, The Cumulative Cost of Additional Wakefulness, Sleep, 2003

O achado mais desconfortável é outro. A avaliação subjetiva de sonolência, que os participantes davam todo dia, subiu pouco e depois estacionou, enquanto os lapsos continuavam aumentando. Quem estava dentro do experimento não conseguia perceber o tamanho da própria queda.

Vale registrar os limites. A amostra era de adultos jovens saudáveis em ambiente controlado, o teste media atenção sustentada e não prova discursiva, e o efeito varia bastante de pessoa para pessoa, com um grupo mais resistente e outro que despenca rápido. A direção do resultado é sólida; o número exato de cada um, não.

 
 

III  Na Prática

Recupere as duas horas que já estão no seu dia

Passo 1, medir a semana antes de mudar: anote por sete dias a hora em que apagou a luz e a hora em que acordou, sem tentar melhorar nada. A média real costuma ser meia hora menor que a estimada, e o cronograma precisa nascer do número verdadeiro.

Passo 2, mover a hora de deitar em blocos de quinze minutos: puxe o horário quinze minutos para trás por semana, até chegar na faixa de sete a oito horas. Salto de uma hora de uma vez não pega, e a pessoa volta ao horário antigo na terceira noite.

Passo 3, cortar do cronograma o bloco que a hora nova come: decida com antecedência qual matéria sai da noite, em vez de descobrir isso na hora do cansaço. Bloco não decidido é bloco que invade o horário de dormir.

Procure as duas horas fora do estudo antes de tirar da matéria. Vídeo curto na cama, série engatada depois do jantar, discussão em grupo de aplicativo: na maioria das rotinas, o tempo que falta na noite está ali, e não no cronograma.

Adiante o alarme da manhã só depois de acertar a noite. Acordar mais cedo para estudar antes do trabalho é uma boa jogada quando o horário de deitar já foi ajustado, e é só mais um corte quando não foi.

Se o trabalho impõe uma noite curta em dias específicos, planeje a semana com essas noites marcadas. Coloque o bloco de teoria nova nos dias de sono cheio e deixe questões repetidas e revisão de fichas para o dia seguinte à noite curta.

Use o cochilo do meio da tarde como remendo, não como plano. Vinte minutos ajudam a atravessar o dia, e o experimento mostra que o saldo acumulado não se resolve com cochilo, então ele não autoriza mais uma noite de seis horas.

Cuidado com a cafeína depois das quatro da tarde. Ela apaga a sensação de sono sem devolver o desempenho, o que é exatamente o problema de fundo: você deixa de sentir a queda e continua caindo.

Acerte a hora fixa também no fim de semana. Manter o horário de acordar com no máximo uma hora de diferença no sábado e no domingo evita que a segunda de manhã comece com o corpo em outro fuso.

Meça o resultado por evidência externa, não por sensação. Compare o percentual de acerto num simulado feito depois de duas semanas na faixa nova com o de um simulado da fase antiga, e olhe também o tempo médio por questão.

Espere que a mudança pareça pequena demais. Dormir uma hora e meia a mais não produz nenhuma manhã espetacular, e o ganho aparece na terceira semana, no número de questões que você atravessa sem reler o enunciado.

"Que horas você vai apagar a luz hoje, antes de decidir a próxima matéria?"

 
 
 
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Quiz da edição

O que Van Dongen e Dinges encontraram em 2003 depois de catorze noites de seis horas na cama?

AO desempenho se estabilizou depois de três dias de adaptação
BO déficit chegou ao patamar de até duas noites inteiras sem dormir
COs participantes relataram sonolência proporcional à queda medida
DSó o grupo de quatro horas apresentou alguma perda de desempenho

Defenda seu título de Vigia (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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