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Quando a questão resolvida para de ensinar

Kalyuga mediu em 2001 com aprendizes de eletricista: o exemplo pronto vence no começo e perde para resolver sozinho depois.

Folha com um circuito elétrico desenhado e resolvido ao lado de uma folha em branco sobre uma mesa de oficina.

O circuito resolvido ao lado da folha em branco

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Uma em 2. Era a chance de um aprendiz de eletricista na Austrália receber, no começo do treino, a folha com o circuito já resolvido linha a linha. A outra metade da turma recebia o mesmo circuito em branco, para montar sozinha. Para quem caía no primeiro grupo, a sorte valia uma tarde mais leve e uma prova melhor no final dela.

O sorteio fazia parte de um estudo de Slava Kalyuga, Paul Chandler, Juhani Tuovinen e John Sweller, da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, publicado em 2001 no Journal of Educational Psychology. Os aprendizes estudavam circuitos de comando elétrico, os que ligam motores e lâmpadas por chaves e relés (interruptores acionados por um eletroímã).

Nas primeiras sessões, o resultado confirmou o que os professores de ofício já desconfiavam. Quem estudou o circuito pronto foi melhor na prova que quem quebrou a cabeça sozinho diante da folha vazia.

A surpresa veio com o tempo de oficina. Os mesmos aprendizes seguiram treinando, ganharam experiência com aquele tipo de circuito, e a vantagem do exemplo pronto foi sumindo. Numa etapa mais adiantada, quem resolvia sozinho passou a vencer quem continuava lendo a solução.

A ferramenta que ajudava o iniciante começou a atrapalhar o aprendiz já treinado. Os autores batizaram a inversão de efeito de reversão da expertise (quando o apoio útil para o novato vira peso para quem já sabe).

Agora pense no candidato que estuda Raciocínio Lógico com um caderno de questões comentadas. No primeiro mês, ler a resolução de cada questão de porcentagem é o que o faz entender a matéria.

No quarto mês, ele continua lendo a resolução antes de tentar. Acompanha cada linha, concorda com tudo e sente que domina o assunto. Na prova, sem ninguém para mostrar o caminho, trava na terceira questão de porcentagem.

O caderno não piorou. Quem mudou foi o candidato, e o método de estudo ficou parado no primeiro mês.

O estudo de Sydney mostra que a mesma ferramenta tem prazo de validade dentro de cada assunto. A pergunta que importa ao candidato é como reconhecer a hora de trocar.

A técnica abaixo explica por que o exemplo pronto ajuda no começo e o que acontece na cabeça quando ele vira excesso.

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I  A Técnica

O gabarito que pesa para quem já sabe

O mesmo exemplo resolvido pode ensinar ou atrapalhar, conforme quem o lê.

Use a questão resolvida enquanto o assunto é novo, e troque para a questão em branco assim que acertar duas seguidas sem olhar a resposta. A regra parte da teoria da carga cognitiva (a ideia de que a memória de curto prazo segura poucas informações ao mesmo tempo), formulada por John Sweller nos anos 1980.

A memória de trabalho (a parte da mente que segura o que você está pensando agora) é estreita. O iniciante que encara uma questão nova gasta quase toda ela tentando adivinhar o caminho, e sobra pouco espaço para aprender o padrão por trás da solução.

O exemplo pronto tira esse peso. O caminho já está no papel, e a cabeça do iniciante pode usar o espaço livre para entender por que cada passo veio antes do outro.

Com o treino, o candidato monta esquemas (pacotes de conhecimento guardados na memória de longo prazo, que ele puxa inteiros sem esforço). Quem já tem o esquema da regra de três não precisa mais pensar em cada passo dela.

Quando o exemplo vira excesso

Para esse candidato, ler a solução escrita obriga a cabeça a fazer trabalho dobrado. Ela compara o que já sabe com o que está escrito, linha por linha, e gasta memória de trabalho para conferir o óbvio.

Kalyuga e os colegas chamaram o desperdício de redundância (informação repetida que a mente precisa processar sem ganhar nada com ela). O exemplo pronto, que liberava espaço no começo, passa a ocupar espaço depois.

Resolver sozinho faz o contrário para quem já tem base. A cabeça precisa buscar o esquema na memória, aplicar e checar o resultado, e cada busca deixa o caminho mais firme para a prova.

“Longo é o caminho pelos preceitos; curto e eficaz, pelos exemplos.”

Sêneca, Cartas a Lucílio, carta 6, cerca de 63 d.C.

Sêneca tinha razão para o começo da estrada. O estudo australiano acrescenta o resto: depois de certo trecho, o exemplo deixa de encurtar o caminho e vira bengala.

A técnica tem limites. A troca vale por assunto, nunca pela matéria inteira: o candidato que domina porcentagem pode ser iniciante em análise combinatória e ainda precisar do exemplo pronto ali. E acertar duas seguidas é um critério prático desta casa, sem número tirado do estudo.

Saber a hora da troca exige um dado, e a seção seguinte mostra como o estudo mediu a inversão.

 
 

II  O Dado

A inversão dentro da mesma turma

Slava Kalyuga, Paul Chandler, Juhani Tuovinen e John Sweller publicaram em 2001 no Journal of Educational Psychology que o exemplo resolvido venceu a resolução de problemas no começo do treino de aprendizes de eletricista, e que a vantagem se inverteu quando os mesmos aprendizes ganharam experiência.

O artigo se chama When problem solving is superior to studying worked examples (quando resolver problemas supera estudar exemplos resolvidos). O título já anuncia a conclusão que contraria a maior parte da pesquisa da época.

Até ali, a teoria da carga cognitiva vinha acumulando resultados a favor do exemplo resolvido. O trabalho de Sydney perguntou se a vantagem valia para qualquer aluno, em qualquer etapa do aprendizado.

Os participantes eram aprendizes de um curso técnico de eletricidade, adultos jovens já empregados no ofício. Eles estudavam circuitos de comando, um conteúdo que exige seguir a lógica de chaves e relés em sequência.

O desenho comparou dois formatos de estudo do mesmo conteúdo, em etapas diferentes do treino. Um grupo estudava a solução completa; o outro recebia o problema e montava a resposta.

EstudoKalyuga e outros, 2001
PublicaçãoJ. Educ. Psychology
LocalSydney, Austrália
Participantesaprendizes de eletricista
Começo do treinoexemplo venceu
Etapa avançadaresolver venceu

No começo, os aprendizes que estudaram exemplos resolvidos tiveram nota melhor na prova e relataram menos esforço mental. O exemplo cumpria o papel previsto pela teoria.

Com a experiência acumulada, a vantagem caiu e virou do lado oposto. Os aprendizes que resolviam sozinhos passaram a acertar mais, e o grupo do exemplo pronto relatava mais esforço para ler soluções que já não traziam nada novo.

Em 2003, Kalyuga, Paul Ayres, Chandler e Sweller reuniram esse e outros resultados num artigo da revista Educational Psychologist e deram ao padrão o nome que ficou: efeito de reversão da expertise.

Em 2004, Kalyuga e Sweller publicaram no Journal of Educational Psychology um teste rápido para achar a hora da troca: mostrar a questão ao aluno e pedir só o primeiro passo da solução. Quem acerta o primeiro passo já está pronto para resolver sozinho.

Os limites contam. O estudo mediu um ofício técnico, com conteúdo de lógica em sequência, e não uma prova de concurso. Aplicar a troca a questões de banca brasileira é usar o mesmo mecanismo, sem medição direta em aprovação.

 

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III  Na Prática

Do comentado para o caderno em branco

Passo 1, separe a matéria por assunto: na lista do edital, marque cada tópico como novo ou conhecido.

Passo 2, estude o tópico novo pelo exemplo: leia três questões comentadas antes de tentar a primeira sozinho.

Passo 3, faça o teste do primeiro passo: cubra a resolução e escreva só o primeiro passo; acertou, o tópico sai do comentário.

Passo 4, troque para o caderno em branco: depois de duas questões certas seguidas, resolva sem olhar e confira o gabarito só no final.

Um exemplo com Juliana Prado, que estuda para escriturária do Banco do Brasil e trabalha num escritório de contabilidade até as 17h. Ela resolvia Matemática Financeira lendo o comentário de cada questão antes de tentar.

Com a lista do edital marcada, Juliana viu que juros simples já estavam no caderno dela havia três meses. Mesmo assim, lia o comentário inteiro de cada questão do assunto, por hábito.

Ela fez o teste do primeiro passo em cinco questões de juros simples e acertou todas. O assunto foi para o caderno em branco, e o comentário ficou reservado para juros compostos, que ainda eram novos para ela.

Um tropeço comum é trocar cedo demais. Quem tira o exemplo antes de ter base volta a gastar a memória de trabalho adivinhando o caminho, erra muito e conclui que o assunto é difícil.

O tropeço oposto é ficar no comentário por conforto. Ler a solução dá a sensação de domínio, porque tudo faz sentido no papel, e essa sensação some na prova sem a resolução ao lado.

Depois de seis semanas, o caderno de Juliana tinha dois ritmos: comentário nos tópicos novos e folha em branco nos conhecidos. Ela passou a saber qual assunto pedia exemplo e qual pedia treino de prova.

“Qual assunto do seu edital você ainda estuda pela resolução, mesmo acertando sem ela?”

Confira no próximo bloco de estudo:

• o assunto marcado como novo ou conhecido, na lista do edital;

• o primeiro passo escrito com a resolução coberta, certo ou errado;

• o número de questões certas seguidas antes de tirar o comentário.

 
 
 
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Em que ano Kalyuga e colegas publicaram o estudo com aprendizes de eletricista na Austrália?

A1999
B2003
C2001
D2004

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