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2 selos de brinde quase dobram quem completa a cartela

Nunes e Drèze mediram em 2006 num lava-rápido: 34% fecharam a cartela de 10 com 2 selos dados, contra 19% na de 8.

Cartão de fidelidade de lava-rápido com dez círculos, dois já carimbados, sobre o painel de um carro.

Dois selos marcados antes da primeira lavagem

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Uma em 5 contra uma em 3. Foram as chances de um motorista chegar à lavagem grátis num lava-rápido americano, segundo o cartão que recebeu no balcão, na medição que Joseph Nunes e Xavier Drèze publicaram em 2006.

Os dois cartões pediam o mesmo esforço ao cliente: comprar mais 8 lavagens. O primeiro tinha 8 espaços vazios. O segundo tinha 10 espaços, e o atendente já entregava os 2 primeiros carimbados, de cortesia.

A distância até o prêmio era idêntica. Na medição de Nunes e Drèze, quem levou a cartela de 8 completou em 19% dos casos. Quem levou a cartela de 10 com 2 selos marcados completou em 34%, quase o dobro.

Nada mudou no preço, na lavagem ou no prêmio. Mudou só o ponto de partida que o cliente enxergava: zero de 8 parece um caminho inteiro pela frente; 2 de 10 parece uma tarefa já começada.

Nunes, da Universidade do Sul da Califórnia, e Drèze, então na Wharton, deram nome ao fenômeno: efeito do progresso dotado (endowed progress effect, o empurrão que vem de um avanço recebido antes do primeiro esforço).

Agora troque o lava-rápido pela mesa de estudo. O candidato abre o edital do tribunal, conta 14 matérias e monta um ciclo (a sequência fixa de blocos que se repete até a prova). A planilha nasce com todas as casas vazias.

Só que ele não começa do zero. Já estudou Português na faculdade, já resolveu questões de Constitucional no mês passado, já leu a lei seca de Administrativo duas vezes. Nada disso aparece na planilha, que mostra 0% no primeiro dia.

A planilha mente para baixo. O candidato olha a fileira de casas brancas e sente a distância do lava-rápido de 8 selos, quando a distância real é a da cartela que já veio com 2.

A técnica abaixo monta o ciclo de estudo como a cartela de 10, com o progresso verdadeiro marcado desde o primeiro dia, sem inventar avanço que não existe.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Técnica

A cartela que já vem começada

Quem vê a tarefa começada acelera para terminá-la.

Monte o ciclo com o avanço que você já tem marcado na primeira linha da planilha. O nome da regra é cartela começada: o que já foi estudado entra como selo antes do primeiro bloco novo.

A explicação mais antiga para o efeito vem de ratos. Em 1932, o psicólogo Clark Hull, da Universidade Yale, publicou na Psychological Review que ratos num corredor corriam mais rápido à medida que se aproximavam da comida.

Hull chamou o padrão de gradiente de meta (goal gradient, a aceleração que cresce conforme o objetivo fica perto). O esforço não se distribui igual pelo caminho; ele se concentra no trecho final.

A cartela de 10 com 2 selos usa o mesmo mecanismo por um atalho. Ela coloca o cliente mais perto do fim já na largada, e a sensação de proximidade puxa a próxima visita.

O que conta como selo verdadeiro

O selo de cortesia do lava-rápido era um presente, e mesmo assim funcionou. No estudo, o efeito tem uma condição: o cliente precisava ler os 2 selos como avanço na tarefa, e não como enfeite do cartão.

No ciclo de estudo, o selo é verdadeiro. Conta o bloco que você já cumpriu no edital atual: a matéria já vista inteira, a bateria de questões já corrigida, a lei já lida com marcação.

Não conta a intenção. O bloco que você pretende fazer na sexta fica em branco até a sexta. Marcar adiantado transforma a planilha numa promessa, e promessa quebrada pesa mais do que casa vazia.

“O começo, diz o ditado, é metade do todo.”

Aristóteles, Política, século IV a.C.

Aristóteles citava o provérbio para falar de revoluções que nascem de causas pequenas. Na planilha, a frase vale ao pé da letra: o começo registrado muda a leitura de tudo o que falta.

A regra tem um limite. Ela não cria horas de estudo. Ela só tira da planilha a ilusão de que você parte do zero, e o resto depende de sentar e cumprir o bloco seguinte.

Outro limite: o efeito perde força quando o progresso inicial parece arbitrário. Um ciclo de 10 blocos com 2 marcados sem motivo vira um cartão de brinde que o próprio dono não leva a sério.

 
 

II  O Dado

300 cartões e uma lavagem grátis

Joseph Nunes e Xavier Drèze publicaram em 2006 no Journal of Consumer Research que 34% dos clientes com a cartela de 10 selos e 2 já marcados chegaram à lavagem grátis, contra 19% dos clientes com a cartela de 8 selos vazia.

O artigo se chama The Endowed Progress Effect: How Artificial Advancement Increases Effort (o efeito do progresso dotado: como o avanço artificial aumenta o esforço). O experimento de campo distribuiu 300 cartões num lava-rápido nos Estados Unidos.

Os cartões eram entregues ao acaso, metade de cada tipo, a clientes que tinham acabado de pagar uma lavagem. Cada lavagem nova valia um carimbo, e a cartela cheia valia uma lavagem grátis.

O detalhe que dá força ao resultado: nos dois grupos, faltavam exatamente 8 compras. A única diferença era o desenho do cartão, e o desenho sozinho mudou o comportamento de quem o carregava no porta-luvas.

EstudoNunes e Drèze, 2006
PublicaçãoJournal of Consumer Research
Locallava-rápido nos Estados Unidos
Cartões distribuídos300
Compras exigidas8 nos dois cartões
Resultado34% contra 19% de cartelas completas

A velocidade também mudou. Os clientes da cartela começada não só completaram mais; eles voltaram em intervalos menores entre uma lavagem e outra, como os ratos de Hull no trecho final do corredor.

Também em 2006, Ran Kivetz, Oleg Urminsky e Yuhuang Zheng, da Universidade Columbia, publicaram no Journal of Marketing Research a versão do café. Num cartão de fidelidade de cafeteria, os clientes compravam com mais frequência à medida que o cartão enchia.

Os dois estudos apontam para o mesmo motor. A pessoa avalia a tarefa pela fração que falta, e não pelo número absoluto de passos. Daí 8 de 10 parecer mais curto que 8 de 8.

A medição de Nunes e Drèze responde também a uma dúvida natural: o efeito não veio de clientes mais fiéis. Como os cartões foram sorteados no balcão, os dois grupos tinham o mesmo perfil de frequência antes do experimento.

Os limites contam. Os clientes compravam um serviço que já usavam, o prêmio era concreto e o prazo do cartão era fixo. Estudar para concurso exige horas diárias e um prêmio que leva meses ou anos.

Ninguém mediu o efeito do progresso dotado em candidatos de concurso montando ciclo de estudo. A planilha começada é uma aposta apoiada no mesmo mecanismo, e não um resultado testado em aprovação.

 

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III  Na Prática

A planilha do ciclo em 4 passos

Passo 1, divida o ciclo em 10 blocos: pegue as matérias do edital e distribua 10 blocos de estudo pelo peso de cada uma, com uma linha por bloco e uma coluna para a data em que ele foi cumprido.

Passo 2, carimbe o que já existe: marque como feitos os blocos que você cumpriu nos últimos 7 dias dentro do edital atual, com a data real. Esses são os selos de cortesia que você mesmo ganhou.

Passo 3, mostre a fração no topo: crie uma célula que divide os blocos feitos por 10 e exiba o resultado em porcentagem. A planilha passa a abrir em 20%, e não em zero.

Passo 4, renove sem zerar: quando os 10 fecharem, abra o ciclo seguinte e carimbe os blocos de revisão que você já fez das matérias do ciclo anterior.

Um exemplo com Júlia, que estuda para analista de tribunal do trabalho. O ciclo dela tem 2 blocos de Português, 2 de Direito do Trabalho, 2 de Processo do Trabalho, 2 de Constitucional, 1 de Administrativo e 1 de Raciocínio Lógico.

Na semana anterior, Júlia já tinha resolvido 40 questões de Português e lido os 20 primeiros artigos da Constituição com marcação. A planilha dela nasce com 2 de 10, e o topo mostra 20%.

Na terceira noite, cansada, ela abre a planilha e vê 50%. Metade do ciclo já está feita, e o bloco de Raciocínio Lógico que ela adiaria passa a ser o que leva a conta a 60%.

Um tropeço comum é carimbar o bloco planejado para o fim de semana. A planilha vira a cartela com selos falsos, e o dono deixa de acreditar no número do topo.

Outro tropeço é montar ciclos longos demais. Com 40 blocos, os 2 iniciais viram 5% e quase não aparecem; o ciclo de 10 mantém cada carimbo visível na fração.

Quem já estuda com ciclo pode aplicar a técnica hoje. Abra a planilha atual, procure os blocos cumpridos que nunca foram registrados e anote cada um com a data em que aconteceu.

Se a busca não achar nenhum bloco cumprido, a planilha abre em zero, e a regra vale do mesmo jeito: o primeiro bloco feito já entra como selo, e o ciclo de 10 mostra 10% no fim da primeira noite.

“Quantos blocos do seu ciclo atual você já cumpriu e ainda não marcou em lugar nenhum?”

Confira na planilha desta semana:

o número de blocos do ciclo, que deve ser 10;

a data real escrita em cada bloco carimbado;

a porcentagem do topo, que deve abrir acima de zero.

 
 
 
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Quiz da edição

No experimento de 2006 num lava-rápido americano, qual foi a porcentagem de clientes que completou a cartela de 10 espaços com 2 selos já marcados?

A19%
B28%
C34%
D41%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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