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O papel vence a tela quando o relógio corre

Delgado e colegas somaram 54 estudos em 2018: o papel rende mais compreensão, e a vantagem cresce na leitura cronometrada.

Folhas impressas com marcações a lápis sobre a mesa, um notebook fechado e um cronômetro ao fundo.

Folha marcada à frente, tela fechada atrás

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Cinquenta e seis em cem. Pela conta do tamanho de efeito que Pablo Delgado e três colegas publicaram em 2018, essa é a chance de um leitor sorteado entre os que leram no papel entender o texto melhor que um leitor sorteado entre os que leram o mesmo texto na tela.

Parece pouco, uma moeda levemente viciada. Só que a moeda foi lançada em 54 estudos, com mais de 171 mil leitores somados, e caiu do mesmo lado com folga suficiente para descartar o acaso.

E ela pesa mais numa situação específica, a que o concurseiro vive toda semana: quando a leitura tem relógio.

Pense no candidato que baixa o PDF do edital, das leis secas e das apostilas e lê tudo no notebook. Economiza papel, tinta e espaço na mesa. Marca trechos com o cursor, pula de arquivo em arquivo, deixa a aba de questões aberta em outra janela.

No simulado cronometrado, ele relê o enunciado duas vezes e ainda erra a questão de interpretação que dependia de uma vírgula no terceiro parágrafo do texto-base.

O cansaço leva a culpa. A meta-análise (o estudo que soma e pesa os resultados de muitos outros) aponta outro suspeito: o meio em que ele treinou a leitura rende menos compreensão, e a perda cresce quando o tempo aperta.

Imprimir tudo, porém, custa caro e não cabe na rotina. O material de um concurso de tribunal passa fácil de cem páginas de lei seca, fora as apostilas e as provas anteriores.

A saída está em escolher. Algumas peças do material ganham muito no papel, outras perdem quase nada na tela, e a diferença segue um critério simples de aplicar.

O critério começa por duas perguntas sobre cada arquivo: que tipo de texto ele é, e se você vai lê-lo com o relógio correndo.

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I  A Técnica

Imprima o que tem relógio

Toda pilha de material de concurso esconde dois tipos de leitura, e só um deles pede papel.

Imprima o texto que você vai ler sob tempo ou que precisa entender em profundidade, e deixe na tela o que serve só para consulta rápida. Chame a regra de triagem do papel: cada arquivo passa por duas perguntas antes de chegar à impressora.

A primeira pergunta é sobre o relógio. Simulado, prova anterior resolvida no tempo da banca e bloco de questões de interpretação de texto são leituras cronometradas, e foi nelas que a vantagem do papel apareceu maior.

A segunda pergunta é sobre o tipo de texto. Texto informativo e denso, como lei seca com remissões (as referências de um artigo a outro), jurisprudência comentada e texto-base de interpretação, rende mais no papel. Texto narrativo, como a crônica que abre uma prova de português, mostrou diferença pequena ou nula.

Quem responde sim às duas perguntas imprime sem pensar. Quem responde sim a uma só decide pelo peso do assunto no edital. Quem responde não às duas deixa o arquivo na tela.

O que fica na tela

A tela vence em tarefas que o papel faz mal. Buscar um artigo pela palavra, conferir um prazo, localizar a súmula citada numa questão: tudo cabe no atalho de busca, em segundos.

Vídeo-aula, mapa mental em aplicativo e banco de questões on-line também ficam onde estão. O ganho medido nos estudos vale para ler texto corrido com atenção, e não para consultar.

O resumo que você mesmo escreveu no computador entra na conta como texto denso. Se ele vai ser relido na semana da prova, com hora marcada, ele sobe para a pilha de impressão.

Um motivo provável para o relógio pesar tanto vem da própria tela. Rakefet Ackerman e Tirza Lauterman, do Technion, o instituto de tecnologia de Israel, mostraram em 2012 na revista Computers in Human Behavior que estudantes sob pressão de tempo compreendiam pior na tela e mantinham o desempenho no papel.

"Alguns livros são para serem provados, outros para serem engolidos, e alguns poucos para serem mastigados e digeridos."

Francis Bacon, Ensaios, 1625.

Bacon falava de livros inteiros, e a triagem do papel aplica a mesma divisão a cada arquivo do edital. O que se consulta, prova-se na tela; o que se mastiga, com caneta e tempo contado, vai para a folha.

Resta ver o que os 54 estudos mediram e em que condição a vantagem cresce.

 
 

II  O Dado

Cinquenta e quatro estudos, um relógio

Pablo Delgado, Cristina Vargas, Rakefet Ackerman e Ladislao Salmerón publicaram em 2018 na Educational Research Review (revista de revisões de pesquisa em educação) uma meta-análise de 54 estudos feitos entre 2000 e 2017, com mais de 171 mil participantes. O papel venceu a tela na compreensão de leitura, com tamanho de efeito de 0,21.

Delgado, Vargas e Salmerón trabalhavam na Universidade de Valência, na Espanha, num grupo que estuda leitura em meio digital. Ackerman, a mesma pesquisadora do Technion citada acima, entrou pelo lado da metacognição (a avaliação que o leitor faz do próprio entendimento).

O título do artigo já dizia a conclusão: Don't throw away your printed books (não jogue fora seus livros impressos). Cada estudo somado comparava leitores do mesmo texto em papel e em tela e media quanto eles entendiam depois.

Tamanho de efeito é a distância entre dois grupos medida em desvios-padrão (a unidade que mostra quanto os resultados variam em torno da média). Um valor de 0,21 é pequeno, e ao virar chance dá os 56 em 100 do começo: a leitura em papel sai à frente na maioria dos sorteios, por pouco em cada um.

EstudoDelgado, Vargas, Ackerman e Salmerón, 2018
Título originalDon't throw away your printed books (não jogue fora seus livros impressos)
PublicaçãoEducational Research Review
Estudos somados54, publicados de 2000 a 2017
Leitoresmais de 171 mil
Resultado geralpapel à frente, tamanho de efeito de 0,21

O achado que interessa ao concurseiro está nos moderadores (as condições que aumentam ou diminuem o efeito). Nos estudos com tempo cronometrado, a vantagem do papel foi maior; nos estudos em que cada leitor seguia no próprio ritmo, ela encolheu.

O tipo de texto também mudou a conta. Em textos informativos, o papel ganhou; em textos narrativos, os autores não acharam diferença entre os meios.

Um terceiro moderador contraria a aposta de muita gente. A vantagem do papel cresceu ao longo dos 17 anos cobertos, e não sumiu com leitores mais acostumados à tela. A familiaridade com o aparelho não fechou a distância.

A explicação preferida pelos autores é o raso da tela: quem lê no monitor tende a correr os olhos e superestimar o que entendeu. Ackerman e Morris Goldsmith já tinham mostrado em 2011, no Journal of Experimental Psychology: Applied, que leitores de tela previam notas mais altas que as obtidas.

Os limites contam. A maioria dos participantes era de estudantes, as telas variavam entre computador e tablet, e o efeito, médio para pequeno, não condena a leitura digital. Virginia Clinton, da Universidade de Dakota do Norte, chegou a resultado parecido em 2019 no Journal of Research in Reading, com 33 estudos.

Falta converter a medição numa pilha de impressão que caiba no bolso.

 

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III  Na Prática

A pilha de impressão da semana

Passo 1, liste o material da semana: anote cada arquivo que você vai ler nos próximos sete dias, com o número de páginas e o dia previsto.

Passo 2, faça as duas perguntas: na frente de cada arquivo, marque R se a leitura terá relógio e D se o texto é informativo e denso; quem tem as duas letras vai para a impressora.

Passo 3, leia com caneta e cronômetro: no papel, sublinhe só a palavra que muda o sentido da frase e marque na margem o tempo gasto em cada bloco.

Um exemplo com a semana de um candidato a analista de tribunal. Segunda, lei seca de processo civil para consulta: tela. Quarta, prova anterior da banca com 20 questões de português no tempo real: papel, com R e D. Sábado, simulado completo: papel inteiro.

A crônica que abre a prova de português, por ser narrativa, pode ficar na tela durante o estudo. O texto dissertativo que costuma aparecer nas questões de interpretação, informativo e denso, merece a folha.

Para não imprimir o edital inteiro, recorte. Imprima os artigos da lei seca que mais caem nas provas da sua banca e deixe o resto no PDF, com a busca à mão.

Um tropeço comum é imprimir e ler do mesmo jeito da tela, correndo os olhos. O ganho vem da leitura mais lenta que o papel convida, e ele some se o candidato folheia a pilha como quem rola uma página.

Outro tropeço é imprimir o que só vai ser consultado. Tabela de prazos e lista de súmulas em papel viram busca manual, que a tela faz melhor.

Na semana da prova, a regra aperta. Todo simulado passa a ser feito no papel, porque a prova também será, e treinar no mesmo meio da prova cria o hábito certo para a sala.

Dê à triagem três semanas antes de julgar. Compare, no caderno de erros, os acertos nas questões de interpretação feitas em papel com os das feitas na tela.

"Qual arquivo do seu material você lê com o relógio correndo, e em que meio você está lendo esse arquivo agora?"

Confira na sua pasta de estudos:

quantas páginas do último simulado você leu no papel e quantas na tela;

quantos arquivos da semana recebem as duas letras, R e D;

quantas questões de interpretação você acertou no papel contra quantas acertou na tela no último mês.

 
 
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Em qual revista Pablo Delgado e colegas publicaram, em 2018, a meta-análise dos 54 estudos sobre leitura no papel e na tela?

AJournal of Experimental Psychology: Applied
BComputers in Human Behavior
CEducational Research Review
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