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O palpite no Cebraspe empata em 50%

Cada item errado apaga um certo, e o saldo do palpite só fica positivo quando a chance de acerto passa da metade.

Folha de respostas de prova com colunas de certo e errado, parte dos itens marcados e parte em branco.

Folha de certo e errado com itens em branco

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Uma em duas. Era a chance de Marina Teles acertar o item 87 da prova de agente da Polícia Federal, e ela só sabia de um fato: ignorava a resposta.

O item afirmava que a prisão temporária, em crime hediondo, dura até 30 dias, prorrogáveis por igual período. Marina lembrava do número 30, mas não lembrava se a lei falava em hediondo ou em qualquer crime. Faltavam 14 minutos, e a folha de respostas ainda tinha 11 itens em branco.

Na prova do Cebraspe, cada item é uma afirmação para marcar como certa ou errada. Quem marca e acerta ganha um ponto. Quem marca e erra perde um ponto. Quem deixa em branco fica com zero.

Na prova de Marina, eram 120 itens para quatro horas e meia de prova. Cada ponto valia posições na lista de classificação, e um ponto a mais ou a menos podia mover o candidato várias posições, para dentro ou para fora das vagas.

A regra aparece no edital, e todo candidato a lê. Mesmo assim, no aperto do relógio, a decisão costuma sair do estômago. Marina conhecia dois conselhos opostos dos colegas de cursinho: um mandava nunca chutar no Cebraspe; o outro, chutar tudo, porque a sorte compensa.

Os dois conselhos erram pelo mesmo motivo. Tratam o palpite como ato de coragem ou de medo, quando ele tem preço calculável, item por item, com uma multiplicação simples.

Marina tinha onze palpites possíveis na mão. Em três deles, sentia uma inclinação forte para um lado. Em cinco, a inclinação era fraca. Nos três restantes, nenhuma pista.

O dilema prático era quantos desses onze valia arriscar. A resposta passa por uma linha de cálculo: quanto o item rende, em média, para quem marca com determinada chance de acertar.

Numa disputa de vaga decidida por décimos, essa linha separa o candidato que soma pontos do que devolve pontos sem perceber, e a técnica abaixo mostra onde fica o limite.

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I  A Técnica

Um ponto ganho, um ponto perdido

O palpite paga quando a chance de acerto passa da metade.

Antes de marcar um item em dúvida, estime a chance de acerto e faça a multiplicação: o saldo esperado do item é duas vezes essa chance, menos um. Acima de 50%, marque; em 50% ou abaixo, deixe em branco. Saldo esperado (a média de pontos que o item renderia se a mesma situação se repetisse muitas vezes) é a ferramenta da técnica.

Com 70% de chance, o item rende 0,7 ponto pelo acerto e tira 0,3 ponto pelo erro. O saldo fica em 0,4 ponto positivo. Pela fórmula, duas vezes 0,7, menos 1, dá 0,4.

Com 50%, o ganho esperado e a perda esperada se igualam em meio ponto, e o saldo fica em zero. Marcar ou deixar em branco rende o mesmo, em média. O chute puro, sem pista nenhuma, mora exatamente nesse ponto, porque o item só admite duas respostas.

Abaixo de 50%, o saldo vira negativo. Com 40% de chance, o item tira 0,2 ponto em média. Quem marca nessa faixa paga para jogar.

Por que o branco tem valor

Em prova de múltipla escolha sem desconto, o branco é desperdício: o chute entre cinco alternativas acerta uma vez em cinco e nunca tira ponto. No Cebraspe, a punição pelo erro transforma o branco numa opção com valor próprio, o zero garantido.

O branco protege a nota de duas formas. Evita o saldo negativo dos itens fracos e evita a oscilação dos itens no limite, onde a média é zero, mas o resultado de uma prova real pode cair vários pontos para baixo.

“É preciso apostar. Não é voluntário: você está embarcado.”

Blaise Pascal, Pensamentos, 1670

Pascal escreveu a frase sobre a fé, e o raciocínio por trás dela é o do saldo esperado: pesar o ganho e a perda de cada escolha pela chance de cada uma. Na folha do Cebraspe, o candidato tem o que Pascal negava ao leitor, a saída de não apostar.

A técnica pede uma condição: honestidade na estimativa. Quem chama de 70% um palpite que vale 50% transforma a fórmula em licença para chutar, e o saldo real desaparece.

A estimativa também tem uma escala curta. Dezenas bastam: 50%, 60%, 70%, 80% e 90%. Pensar em 63% ou 77% gasta tempo de prova sem mudar a decisão, porque o limite é um só e fica na metade.

 
 

II  O Dado

Quanto vale cada grau de certeza

No modelo de itens do Cebraspe, com um ponto por acerto e um ponto descontado por erro, o saldo esperado de um item marcado é 2p menos 1, sendo p a chance de acerto: zero em 50%, positivo acima e negativo abaixo.

A regra do desconto está escrita nos editais da banca. No concurso da Polícia Federal de 2021, organizado pelo Cebraspe, o edital previa que o item marcado em discordância com o gabarito definitivo valeria um ponto negativo, e o item em branco, zero.

A tabela abaixo aplica a fórmula em cinco graus de certeza, do palpite fraco ao item quase sabido.

Chance de 40%-0,2 ponto por item
Chance de 50%0 ponto por item
Chance de 60%+0,2 ponto por item
Chance de 70%+0,4 ponto por item
Chance de 80%+0,6 ponto por item

A tabela esconde o risco. Dez palpites a 50% têm saldo esperado zero, mas o resultado real varia: se sete saírem errados e três certos, a nota cai quatro pontos. Num concurso decidido por décimos, quatro pontos tiram o candidato da lista.

O risco encolhe conforme a chance sobe. Dez palpites a 80% rendem seis pontos em média, e terminar no negativo exigiria seis erros em dez, um desastre raro para quem estimou certo.

O ponto fraco da técnica é a estimativa. Sarah Lichtenstein e Baruch Fischhoff, em artigo de 1977 na revista Organizational Behavior and Human Performance, mostraram que pessoas confiantes em respostas de conhecimento geral acertam menos do que dizem acertar, e o excesso de confiança cresce nas perguntas difíceis.

Para o concurseiro, o achado tem tradução direta: a sensação de 70% num item difícil costuma valer menos de 70%. Item com dúvida real merece um desconto na estimativa antes da multiplicação.

O desconto se mede no próprio treino. Anotar a chance estimada junto a cada item nos simulados e conferir depois quantos acertos saíram em cada faixa mostra se a sua sensação de 70% acerta sete em dez ou cinco em dez.

Outro detalhe do edital pesa na decisão. Muitos concursos do Cebraspe exigem nota mínima por bloco ou por disciplina, e um saldo negativo concentrado numa matéria pode eliminar o candidato mesmo com nota total alta. Ali, o palpite fraco custa mais que um ponto.

 

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III  Na Prática

Os 11 itens em branco de Marina

Passo 1, separe: ao terminar a primeira passada pela prova, marque com um traço no caderno os itens em dúvida, sem decidir nada ainda.

Passo 2, estime: escreva junto a cada um a chance de acerto em dezenas, de 50% a 90%, e tire dez pontos percentuais dos itens que pareceram difíceis.

Passo 3, filtre: passe para a folha de respostas só os itens que ficaram em 60% ou mais depois do desconto; os outros ficam em branco.

Passo 4, olhe a matéria: se o edital tem nota mínima por disciplina, confira o saldo daquela matéria antes de arriscar nela.

Marina Teles fez o exercício nos 14 minutos restantes. Os três itens de inclinação forte começaram em 80% e, mesmo com o desconto de dificuldade, ficaram em 70%. Ela marcou os três.

Os cinco de inclinação fraca começaram em 60% e caíram para 50% com o desconto. Ficaram em branco. Os três sem pista eram 50% puro e também ficaram em branco.

O item 87, o da prisão temporária, estava entre os fortes. Marina lembrou que o prazo de 30 dias vinha da Lei dos Crimes Hediondos, de 1990, e que a lei geral da prisão temporária, de 1989, fixa cinco dias. Marcou certo, e o gabarito confirmou.

Dos três marcados, dois saíram certos e um errado. O saldo foi de um ponto positivo, e os oito brancos não tiraram nada da nota.

O exercício inteiro levou menos de seis minutos. Sobrou tempo para reler os itens marcados na folha óptica e conferir se cada bolinha estava na coluna certa, um erro de transcrição que custa o mesmo ponto de um erro de conteúdo.

Chutar os onze teria outro perfil. Os oito itens fracos, com chance real perto de 50%, somariam zero em média e poderiam ter tirado quatro ou cinco pontos numa prova azarada.

Um tropeço comum é usar a regra como desculpa para deixar a prova quase em branco. Em itens de conteúdo estudado, a chance costuma passar de 50% com folga, e quem não marca abre mão de pontos positivos.

O tropeço oposto é marcar tudo nos últimos minutos, por ansiedade, sem estimar nada. O relógio apertado empurra a sensação de confiança para cima, e a fórmula deixa de proteger.

“Quantos dos seus palpites no último simulado tinham, mais de 50% de chance real?”

Confira no próximo simulado:

• a chance estimada anotada junto a cada item em dúvida;

• o desconto de dez pontos aplicado aos itens difíceis;

• o saldo dos palpites na correção, em pontos.

 
 
 
Quiz da edição

No texto, um item marcado com 70% de chance de acerto rende, em média, qual saldo esperado por item?

A0,2 ponto positivo
B0,7 ponto positivo
C0,4 ponto positivo
D0,3 ponto positivo

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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