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Por que o índice lido antes segura a matéria

Ausubel mediu em 1960 com um texto sobre aço: quem leu antes a estrutura geral lembrou mais três dias depois.

Índice de uma lei aberto sobre a mesa, ao lado de uma folha com uma árvore de tópicos desenhada a lápis.

O índice da lei ao lado da árvore de tópicos

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Uma em 5. É a chance de acertar no chute uma questão de cinco alternativas, e é a chance que sobra ao candidato que leu o capítulo inteiro de Direito Administrativo e, três dias depois, não lembra onde encaixar o que leu.

O texto passou pelos olhos. Faltou o lugar para guardá-lo. Cada artigo da lei chegou solto, sem a gaveta onde deveria entrar, e solto ele escapou.

David Ausubel, psicólogo da Universidade de Illinois, testou essa falta em 1960 com estudantes de graduação e um material que nenhum deles conhecia: um texto sobre as propriedades metalúrgicas do aço-carbono (o aço comum, feito basicamente de ferro e carbono).

Antes do texto principal, metade da turma leu uma passagem curta que apresentava as ideias gerais do assunto, num nível mais abstrato que o próprio texto. A outra metade leu uma introdução de extensão parecida com a história dos metais, sem a estrutura do conteúdo.

Os dois grupos estudaram depois o mesmo material sobre aço. Três dias mais tarde, fizeram o mesmo teste de lembrança.

Quem tinha lido a passagem com a estrutura geral lembrou mais. Ausubel chamou a passagem de organizador prévio (um texto curto, lido antes, que oferece as ideias amplas onde os detalhes vão se prender).

O candidato de concurso costuma fazer o contrário. Abre a lei no artigo 1º e lê em ordem, detalhe por detalhe, esperando que a estrutura apareça sozinha no meio do caminho.

Às vezes aparece. Na maior parte das sessões, o candidato chega ao artigo 80 sem saber em que título está, e a prova cobra justamente a relação entre as partes da lei.

O índice da lei, que ele pula toda vez, é o organizador prévio mais barato que existe. Ocupa duas ou três páginas e mostra a arquitetura inteira antes do primeiro detalhe.

A técnica abaixo explica por que a estrutura lida antes muda o que fica guardado na memória.

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I  A Técnica

A gaveta que vem antes do papel

A ordem de leitura decide onde cada detalhe vai morar.

Antes de estudar um assunto novo, leia por cinco minutos a estrutura geral dele, o índice da lei ou o sumário do capítulo, e só depois entre no detalhe. A regra vem da teoria da aprendizagem significativa (a ideia de que só se aprende de verdade o que se liga a algo que já está na cabeça), que Ausubel formulou nos anos 1960.

Para Ausubel, a memória guarda conhecimento como uma árvore de ideias. No alto ficam as ideias amplas; embaixo, os detalhes, presos a elas.

A imagem explica por que a decoreba da véspera some na semana seguinte: o detalhe decorado sem galho fica sozinho e não tem por onde ser puxado de volta na hora da questão.

Um detalhe novo só se fixa quando encontra um galho onde se prender. Ausubel chamou esse galho de subsunçor (a ideia geral já aprendida que recebe e segura a informação nova).

Quando o galho não existe, a cabeça recorre à decoreba. Ausubel chamou o resultado de aprendizagem mecânica (a informação guardada solta, sem ligação com o resto), e ela se perde rápido.

Quando o aluno não tem o galho

O organizador prévio entra aqui. Ele cria o galho na hora, antes do detalhe chegar, para quem ainda não tem base no assunto.

A diferença em relação a um resumo é o nível. O resumo repete os pontos principais do texto com o mesmo grau de detalhe. O organizador fica acima: apresenta as categorias e as relações que os detalhes vão preencher.

Um sumário de livro de questões que lista só os assuntos em sequência, sem mostrar o que pertence a quê, fica abaixo do organizador. Falta a hierarquia, que é o que dá galho ao detalhe.

Na lei, o índice faz esse papel. O Estatuto dos servidores federais (Lei 8.112, de 1990) se divide em provimento, direitos e vantagens, regime disciplinar e processo disciplinar, e cada artigo lido depois já sabe para onde vai.

“O fator isolado mais importante que influencia a aprendizagem é aquilo que o aprendiz já sabe. Descubra o que ele sabe e ensine de acordo.”

David Ausubel, Educational Psychology: A Cognitive View, 1968

A frase aparece na abertura do livro de 1968 e resume a técnica: o organizador prévio fabrica, em poucos minutos, o que o aluno ainda não sabe e de que o detalhe vai precisar.

A técnica tem limites. Para quem já domina o assunto, o organizador acrescenta pouco, porque o galho já existe. E cinco minutos de índice é um critério prático desta casa, sem número tirado do estudo de 1960.

Saber se o efeito se repete exige olhar o experimento de perto, e a seção seguinte mostra o que Ausubel mediu e o que veio depois.

 
 

II  O Dado

O texto sobre aço que ninguém conhecia

David Ausubel publicou em 1960 no Journal of Educational Psychology que estudantes da Universidade de Illinois que leram antes uma passagem com a estrutura geral de um texto sobre aço-carbono lembraram mais desse texto num teste feito três dias depois.

O artigo se chama The use of advance organizers in the learning and retention of meaningful verbal material (o uso de organizadores prévios na aprendizagem e na retenção de material verbal com significado).

Ausubel escolheu metalurgia de propósito. Precisava de um assunto que os estudantes de graduação não tivessem estudado, para que ninguém chegasse com o galho pronto.

O grupo experimental leu o organizador: uma passagem sobre as semelhanças e diferenças entre metais e ligas (misturas de metal com outros elementos), em termos gerais, sem os detalhes do texto principal.

O grupo de controle leu uma introdução histórica, sobre a evolução dos métodos de trabalhar metais. Era interessante, tinha extensão parecida e não dava estrutura nenhuma ao que viria.

EstudoAusubel, 1960
PublicaçãoJ. Educ. Psychology
LocalUniv. de Illinois, EUA
Participantesalunos de graduação
Materialaço-carbono
Testetrês dias depois
Resultadoorganizador venceu

Os dois grupos estudaram depois o mesmo texto principal. O teste de três dias depois era de múltipla escolha e cobrava os detalhes do material sobre aço.

A média do grupo do organizador ficou acima da média do grupo histórico, numa diferença que Ausubel registrou como estatisticamente significativa (grande demais para ser explicada pelo acaso).

O desenho tinha um cuidado. A introdução histórica controlava o tempo extra de leitura: sem ela, a vantagem poderia vir só de ler por mais minutos, e não da estrutura.

Para o candidato, o detalhe do controle pesa. Ler qualquer introdução antes não basta: a passagem histórica também vinha antes do texto e não produziu a mesma lembrança.

Em 1980, John Luiten, Wilbur Ames e Garry Ackerson reuniram 135 estudos sobre organizadores prévios na revista American Educational Research Journal. O efeito médio saiu positivo e pequeno, tanto na aprendizagem quanto na retenção.

Os limites contam. O experimento de 1960 mediu estudantes universitários americanos diante de um texto técnico, e não candidatos diante de um edital. Aplicar a técnica à lei seca (o texto da lei sem comentário) é usar o mesmo mecanismo, sem medição direta em aprovação.

 

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III  Na Prática

Duas páginas de índice antes do artigo 1º

Passo 1, abra o índice antes da lei: leia só os títulos e capítulos, sem entrar em nenhum artigo.

Passo 2, desenhe a árvore: numa folha, escreva os títulos no alto e os capítulos embaixo de cada um.

Passo 3, leia o detalhe com a árvore ao lado: a cada artigo, marque na folha em que galho ele entra.

Passo 4, teste a estrutura antes da questão: feche a lei e diga de memória em que título fica o assunto cobrado.

Um exemplo com Rafael Moura, que estuda para técnico do INSS e trabalha como atendente numa farmácia até as 18h. Ele lia a Lei 8.112 em ordem, do artigo 1º em diante, toda segunda-feira.

Nas questões, Rafael acertava as de literalidade (as que copiam o texto do artigo) e errava as que misturavam partes da lei, como licença e penalidade na mesma alternativa.

Ele passou a abrir cada sessão pelo índice. Em dez minutos, a folha tinha os títulos e os capítulos de cada um, e a leitura dos artigos virou trabalho de encaixe.

A árvore da Lei 8.112 cabia em meia folha. No alto, os títulos; embaixo de cada um, os capítulos, com setas ligando os que a banca costuma misturar, como licenças no título dos direitos e penalidades no título do regime disciplinar.

Um tropeço comum é transformar o organizador em resumo. Copiar o conteúdo dos artigos na folha da árvore devolve o candidato ao detalhe solto, e a estrutura some no meio do texto.

O tropeço oposto é ficar só no índice. A árvore sem os artigos dá a sensação de que a lei inteira foi entendida, e a prova cobra prazo, exceção e número de dias.

Depois de um mês, Rafael errava menos as questões que cruzavam partes da lei. Antes de marcar a alternativa, ele localizava cada trecho na árvore e via quando a banca juntava dois galhos que a lei mantém separados.

“Qual lei do seu edital você ainda lê do artigo 1º em diante, sem ter olhado o índice?”

Confira na próxima sessão de lei seca:

• os títulos do índice escritos de memória, antes de abrir a lei;

• o galho marcado na folha para cada artigo lido;

• o título certo da lei para cada questão errada da semana.

 
 
 

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No experimento de Ausubel publicado em 1960, antes do texto principal sobre aço-carbono, o grupo de controle leu qual material?

AUm resumo do próprio texto sobre aço, com os mesmos detalhes
BO índice do capítulo de metalurgia usado na pesquisa
CUma introdução histórica sobre a evolução dos métodos de trabalhar metais
DUma passagem sobre as semelhanças e diferenças entre metais e ligas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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