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ED 002

As 40 questões que reordenam o seu edital

Trinta a cinquenta questões dos últimos três anos, lidas sem responder nenhuma, mostram onde a banca cobra antes da primeira hora de teoria.

Caderno de prova antiga aberto sobre a mesa, ao lado de um edital impresso e um marcador fechado, sem pessoas.

Prova antiga aberta antes da primeira apostila

 

O edital sai em PDF e a primeira reação é imprimir. Sessenta, oitenta, às vezes cento e vinte tópicos em fila, numerados, separados por disciplina. O papel sai da impressora com cara de mapa, e a leitura natural é começar pelo item 1 da primeira matéria da lista.

O conteúdo programático, porém, nasce em outro lugar. Ele é escrito pelo órgão junto com a organizadora, com uma finalidade administrativa: delimitar o que pode ser cobrado sem abrir espaço para recurso. A ordem dos itens segue a hierarquia da matéria, nunca a frequência com que cada assunto aparece na prova.

A distância entre as duas ordens custa semanas. Quem começa pelo item 1 gasta os primeiros dias nos assuntos de abertura de cada disciplina, em geral os mais teóricos e os menos cobrados. Princípios gerais, conceitos introdutórios, evolução histórica.

A prova, no mesmo período, segue cobrando os quatro ou cinco temas que ela cobra sempre. A diferença só aparece no primeiro simulado, quando o candidato descobre que aprofundou a parte que rende duas questões e passou correndo pela parte que rende doze.

Existe uma segunda fonte, pública, gratuita e bem mais precisa que o edital: as provas anteriores da mesma banca para o mesmo cargo. Elas não descrevem o que pode cair. Descrevem o que caiu, quantas vezes e de que forma.

O uso comum dessas provas chega tarde. O candidato abre o caderno na reta final, em modo de simulado, com cronômetro ligado e gabarito ao lado, para medir desempenho. A proporção real da prova aparece na tela quando já não sobra tempo de reorganizar o plano.

Simulado mede o candidato. Existe um uso anterior, mais barato, que mede a banca, cabe numa tarde e não exige saber nada da matéria. Ele começa com uma regra que soa estranha: ler as questões sem responder nenhuma.

A técnica tem quantidade definida, recorte de tempo e três anotações por questão. O resultado é o edital reordenado antes da primeira hora de teoria.

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I  A Técnica

Leia sem responder e conte o que repete

Quarenta enunciados da própria organizadora, lidos sem gabarito, mostram quais tópicos do edital sustentam a prova e quais só ocupam linha. O levantamento cabe numa tarde e vale pelo ciclo inteiro.

Separe de trinta a cinquenta questões da sua banca, do seu cargo, dos últimos três anos, e leia todas sem responder nenhuma. O material é público: as provas aplicadas ficam no site da própria organizadora, em PDF, com o gabarito definitivo ao lado.

O recorte importa mais que o volume. Banca não é detalhe de formulário: a mesma matéria vira assertiva de certo ou errado numa organizadora e caso concreto de quatro parágrafos em outra. Questão de banca diferente descreve outra prova.

Três anos costumam bastar. Abaixo de trinta questões a recorrência não aparece e o levantamento vira amostra de sorte. Acima de cinquenta o ganho cai, o tempo estica e a tarde termina em simulado, que é outro exercício.

A regra que sustenta a técnica é a mais estranha de todas: nada de responder. Nem mentalmente, nem só nessa uma. No instante em que você tenta acertar, a atenção troca de alvo e passa a medir você, não a prova. Acertei, errei, quanto por cento.

Sem gabarito na frente, o enunciado volta a ser o objeto de estudo. Você lê o que a banca escolheu cobrar, com que palavras e em que profundidade. As questões também ficam intactas para o treino de recuperação depois, em vez de queimadas numa tarde de diagnóstico.

Ler a questão sem responder troca a pergunta "eu sei responder?" pela pergunta "o que a banca está cobrando aqui?".

São três anotações por questão. A primeira é o tema, com o nome exato do item do edital, nunca a disciplina inteira. Controle de constitucionalidade difuso, e não direito constitucional.

A segunda é o comando: o que a banca pede para o candidato fazer. Repetir a letra da lei, aplicar a regra a um caso, reconhecer a posição do tribunal, calcular, interpretar um gráfico. Duas provas com o mesmo conteúdo programático e comandos diferentes exigem métodos de estudo diferentes.

A terceira é o formato: item de certo ou errado, múltipla escolha curta, enunciado longo com texto de apoio. O formato define o tipo de leitura que você vai treinar depois, com cronômetro.

A marcação é feita à mão, com um risco ao lado do tópico numa impressão da lista do edital, ou em três colunas de planilha. Ao fim das quarenta questões, a lista deixou de ser um índice e virou uma tabela de frequência.

Duas coisas saltam da tabela. A concentração, com um punhado de tópicos respondendo por boa parte dos enunciados, e a ausência, com itens que a banca não tocou em três anos apesar de ocuparem no edital o mesmo peso visual de todos os outros.

A tabela não muda o edital. Muda a ordem em que você entra nele, e a ordem é a única variável que você controla sozinho na primeira semana.

 
 

II  O Dado

Quem vê a pergunta antes retém mais

Ler a pergunta antes do conteúdo muda duas coisas ao mesmo tempo: a ordem em que você estuda e a quantidade que fica na memória. A primeira é estratégia. A segunda é efeito medido em laboratório, com nome próprio e replicação.

Em 2009, Lindsey Richland, Nate Kornell e Liche Kao publicaram no Journal of Experimental Psychology: Applied um experimento de desenho simples. Um grupo estudou um texto do jeito habitual. O outro tentou responder perguntas sobre o texto antes de lê-lo, sem ter a menor condição de acertar, e só depois recebeu o material.

O segundo grupo lembrou mais do conteúdo no teste final. Errar antes de estudar não atrapalhou o aprendizado, a tentativa fracassada preparou o terreno. O efeito ficou conhecido como pretesting, o teste que vem antes do estudo.

A leitura de questões é uma versão ainda mais barata do mesmo mecanismo, e também foi medida. Shana Carpenter e Alexander Toftness testaram em 2017 o efeito de mostrar perguntas antes de uma aula em vídeo, e quem viu as perguntas primeiro reteve mais do conteúdo cobrado por elas.

A explicação é econômica. A pergunta funciona como endereço. Depois de vê-la, o texto deixa de ser massa uniforme e passa a ter alvo, e a leitura seguinte gasta atenção onde a prova cobra.

John Dunlosky e colegas revisaram dez técnicas de estudo em Improving Students' Learning With Effective Learning Techniques, de 2013, e apenas duas receberam classificação de eficácia alta: a prática de recuperação e a prática distribuída. Grifar e reler ficaram na faixa baixa.

A leitura de questões não substitui nenhuma das duas. Ela decide onde as duas vão cair, o que é uma função diferente e anterior.

Distribuir tempo igual entre tópicos desiguais é a forma mais cara de estudar.

O segundo dado é aritmético e sai do seu próprio levantamento. Numa leitura de quarenta questões a distribuição quase nunca é plana: alguns assuntos concentram perto de um terço dos enunciados, e uma fatia considerável dos tópicos do edital não aparece nenhuma vez no período.

Coloque a proporção contra o seu calendário. Quinhentas horas até a prova, divididas igualmente entre sessenta tópicos, dão pouco mais de oito horas para cada um, inclusive para os que a banca não cobra desde a penúltima edição do concurso.

A mesma divisão feita pela tabela de frequência muda o destino de dezenas de horas sem acrescentar um minuto ao total. Nenhuma hora nova, nenhuma técnica nova, só endereço diferente.

Frequência passada não é garantia. Banca troca de elaborador, edital muda de redação, e um tema ausente há três anos pode abrir a prova do ano que vem.

Por causa da incerteza, a tabela entrega prioridade e nunca exclusão. O bloco de baixa recorrência continua no plano, com menos horas e mais tarde. O de alta entra primeiro, quando a cabeça está inteira e o prazo ainda é longo.

 
 

III  Na Prática

Monte o seu mapa da banca hoje

Passo 1, separar: baixe no site da organizadora as provas aplicadas nos últimos três anos para o seu cargo ou para o nível equivalente. Escolha a disciplina de maior peso no edital e recorte de trinta a cinquenta questões dela. Quinze minutos.

Passo 2, ler e marcar: abra três colunas, tema, comando e formato, e percorra os enunciados na ordem em que aparecem. Uma linha por questão, sem gabarito aberto, sem responder. De quarenta e cinco a sessenta minutos.

Passo 3, reordenar: agrupe os tópicos em três blocos, alta recorrência, média e ausente no período. A primeira hora de teoria da semana entra no bloco de alta, no tópico com mais riscos. Quinze minutos.

O critério do bloco de alta é objetivo: tópico que aparece nas três provas lidas, ou que soma três riscos ou mais no levantamento. O que apareceu uma única vez em três anos desce para o terceiro bloco, sem culpa e sem exclusão.

O comando anotado na segunda coluna define como estudar cada bloco. Tópico cobrado pela letra da lei pede leitura de lei seca e questões de literalidade. Tópico cobrado por caso concreto pede resolução de casos desde o primeiro dia, mesmo com a teoria pela metade.

A tarde inteira custa noventa minutos e não avança uma linha de matéria. O retorno aparece já na semana seguinte, quando cada hora de leitura cai num tópico de frequência conhecida.

Duas semanas depois, confira o desvio. Some as horas que você aplicou de fato em cada bloco e compare com a proporção da tabela. Plano que ninguém mede volta sozinho para a ordem do edital.

Repita o levantamento quando sair um edital novo, quando o órgão trocar de organizadora ou quando você mudar de cargo-alvo. Fora as três situações, a tabela vale pelo ciclo inteiro.

Guarde a tabela junto do plano de estudos, em cima da mesa, e nunca no fundo de uma pasta. Ela é a única página do seu material que descreve a prova, em vez de descrever a matéria.

A ordem do edital é administrativa. A ordem da sua semana é escolha sua.

"Qual tópico eu estudo por hábito e a banca não cobra há três anos?"

 
 
Quiz da edição

A técnica pede de trinta a cinquenta questões da própria banca antes da teoria. O que o candidato faz com elas nessa primeira passada?

AResponde todas com cronômetro e anota o percentual de acerto
BLê sem responder nenhuma e anota tema, comando e formato
CConfere o gabarito de cada uma antes de passar para a seguinte
DSepara as mais difíceis para revisar na véspera da prova

Defenda seu título de Vigia (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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