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ED 010

Errar mais no treino é o preço do acerto na prova

Rohrer e Taylor mediram em 2007 o que acontece com o acerto quando os tipos de questão vêm embaralhados na mesma sessão.

Quatro pilhas de exercícios embaralhadas numa só sobre a mesa de estudo, sem pessoas.

Quatro tipos de questão numa pilha só

 

A lista de exercícios do capítulo cinco traz trinta questões do capítulo cinco. O candidato lê a teoria, resolve a primeira, entende o mecanismo, e as vinte e nove seguintes viram trabalho braçal: o método já foi escolhido na primeira linha e só precisa ser repetido com números trocados.

O acerto sobe rápido nesse formato, e a sensação de domínio sobe junto. Ao fim do bloco, o candidato marca a matéria como resolvida no controle de estudo e segue para o capítulo seis, com a impressão honesta de que aquele conteúdo está pronto.

Duas semanas depois, na prova, a mesma pessoa trava. Não porque esqueceu a fórmula, mas porque a questão chegou sem etiqueta. Ninguém avisa que aquele enunciado é do capítulo cinco. O candidato reconhece três caminhos possíveis, hesita entre eles, escolhe o errado e descobre no gabarito que sabia fazer a conta que não precisava fazer.

Resolver questão envolve duas habilidades diferentes que a lista temática esconde uma dentro da outra. A primeira é executar o procedimento certo até o fim. A segunda é olhar um enunciado nu e decidir qual procedimento serve. A lista de capítulo treina a primeira intensamente e a segunda quase nada, porque entrega a decisão de graça no cabeçalho da página.

A prova cobra as duas, e cobra a segunda antes da primeira. É por isso que tanto candidato com caderno impecável de exercícios sai do exame com nota abaixo do que treinou. O treino mediu execução, o exame mediu escolha.

Existe um jeito barato de treinar a escolha, e ele não pede material novo, curso novo nem hora extra de estudo. Pede só uma mudança na ordem em que as questões aparecem dentro da sua sessão, e o efeito colateral dessa mudança é desagradável o suficiente para quase todo mundo abandonar a técnica na primeira semana.

O desconforto tem nome, tem número medido em laboratório e tem uma inversão que vale conhecer antes de tentar: o formato que faz você acertar menos hoje é o mesmo que faz você acertar mais no dia que importa.

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I  A Técnica

Embaralhe os tipos de questão dentro da sessão

Embaralhar os tipos de questão dentro da mesma sessão obriga uma decisão antes de cada conta e treina a escolha do método, que é o que a prova cobra primeiro.

Nenhuma sessão de exercícios deve conter um só tipo de problema. A regra é essa, e ela não muda o material que você já tem, muda a ordem das questões dentro do bloco.

Estudar em blocos temáticos significa resolver dez questões de juros compostos, depois dez de porcentagem, depois dez de regra de três. Estudar embaralhado significa resolver as trinta misturadas, sem aviso de qual é qual.

Nos dois casos você resolve trinta questões e gasta o mesmo tempo. O que muda é que, no formato embaralhado, cada enunciado obriga uma decisão antes da conta, e é a decisão que a prova cobra.

A separação da teoria continua valendo. Estude o capítulo inteiro em bloco, entenda o mecanismo, resolva duas ou três questões guiadas para fixar o procedimento. A mistura entra depois da compreensão, nunca no lugar dela.

Na prova, nenhum enunciado vem com o nome do capítulo escrito em cima.

Misture tipos que competem entre si. Juros simples com juros compostos, próclise com ênclise, dolo eventual com culpa consciente, oração subordinada com coordenada. Confundir dois conceitos parecidos é o erro mais caro do exame, e só o formato embaralhado força o candidato a distinguir os dois.

Misturar matérias completamente distantes ajuda menos. Uma questão de português seguida de uma de raciocínio lógico não gera a mesma dúvida produtiva, porque a distinção entre elas é óbvia na primeira linha.

O ganho aparece justamente no atrito. Quando o enunciado chega sem etiqueta, o candidato precisa procurar a pista dentro do texto, comparar com o que já viu e recuperar o procedimento da memória em vez de repeti-lo do parágrafo anterior.

Aceite a queda de rendimento imediato. Sessão embaralhada tem acerto menor, ritmo mais lento e sensação clara de piora. A sensação é o preço do formato, não um defeito da sua preparação.

Marque o tipo de erro, não só a quantidade. Errar a conta e errar a escolha do método são falhas diferentes e pedem correções diferentes, e a lista temática torna a segunda quase invisível.

Mantenha o embaralhamento também na revisão de meses anteriores. Conteúdo antigo misturado com conteúdo recente é o formato mais parecido com o caderno de prova que você vai receber.

 
 

II  O Dado

Sessenta por cento no treino, sessenta e três na prova

Doug Rohrer e Kelli Taylor publicaram em 2007 um experimento que manteve o número de exercícios constante e variou apenas a ordem em que eles apareciam.

O trabalho saiu na revista Instructional Science com o título The shuffling of mathematics problems improves learning. Os participantes aprenderam a calcular o volume de quatro sólidos geométricos pouco familiares, cada um com uma fórmula própria.

Um grupo praticou em blocos: todos os exercícios de um sólido, depois todos do sólido seguinte. O outro grupo praticou com os mesmos exercícios embaralhados, sem agrupar por tipo.

O teste veio uma semana depois da prática, com problemas dos quatro tipos misturados, que é o formato de qualquer exame real.

Tipos de sólido praticados4
Intervalo entre a prática e o teste1 semana
Acerto durante a prática, grupo em blocos89%
Acerto durante a prática, grupo embaralhado60%
Acerto no teste da semana seguinte, grupo em blocos20%
Acerto no teste da semana seguinte, grupo embaralhado63%

A inversão completa é o achado. O grupo que parecia dominar o conteúdo durante o treino foi o que menos lembrou na semana seguinte, e a distância entre os dois na hora que interessava foi de mais de três vezes.

"Shuffled practice produced poorer performance during practice but markedly better performance on the test one week later."

Doug Rohrer e Kelli Taylor, The shuffling of mathematics problems improves learning, Instructional Science, 2007

A explicação proposta separa duas coisas que a prática em blocos funde. Quem resolve dez questões seguidas do mesmo tipo não precisa escolher a fórmula em nenhuma delas, porque a escolha foi feita uma vez e ficou na memória de trabalho até o fim do bloco.

Robert Bjork organiza esse padrão dentro do conceito de dificuldade desejável: condições que pioram o desempenho durante a prática podem melhorar a retenção medida depois, e desempenho de treino é um indicador ruim de aprendizagem.

Estudos posteriores repetiram o efeito fora da matemática. Alunos que viram quadros de vários pintores embaralhados classificaram melhor telas novas do que alunos que estudaram um pintor por vez, o que sugere que a técnica ajuda sempre que a tarefa exige distinguir categorias parecidas.

Vale registrar os limites. O material era procedimento matemático bem definido, o intervalo até o teste era de uma semana e o efeito depende de o candidato já ter compreendido cada tipo antes da mistura. Embaralhar conteúdo que ainda não foi entendido produz confusão, não aprendizagem.

 
 

III  Na Prática

Monte o bloco embaralhado da sua semana

Passo 1, separar compreensão de treino: reserve a primeira sessão de cada assunto para entender o mecanismo em bloco, com poucas questões guiadas. O embaralhamento entra da segunda sessão em diante.

Passo 2, montar o bolo de questões: junte questões de três ou quatro tipos que você já estudou, embaralhe a ordem e resolva na sequência em que caírem, sem olhar de qual assunto cada uma é.

Passo 3, anotar o tipo de erro: marque cada erro como método escolhido errado ou execução errada. A proporção entre os dois diz se o seu problema é conteúdo ou decisão.

Comece pelas duplas que você vive confundindo. Duas fórmulas parecidas, dois institutos jurídicos vizinhos, duas regras de acentuação próximas. É onde o formato embaralhado rende mais e onde a lista temática engana mais.

Use questões de bancas em vez de exercícios de livro didático. Questão de concurso já chega sem etiqueta, com enunciado longo e pista escondida, que é exatamente a condição que você quer treinar.

Guarde o gabarito para o fim do bloco inteiro. Conferir questão por questão devolve a etiqueta que você acabou de tirar e desmonta o esforço de escolha na questão seguinte.

Não espere sentir progresso na primeira semana. O acerto cai, o tempo por questão sobe e o caderno fica mais feio, e quem mede o próprio estudo pela sensação abandona a técnica exatamente aí.

Compare rendimento só em simulado, nunca dentro da sessão. O simulado espaçado é a medida honesta do formato embaralhado, porque reproduz o intervalo e a mistura que a prova impõe.

Misture também o passado. Reserve uma fração fixa de cada sessão para questões de matérias vistas há mais de um mês, o que soma o efeito da mistura ao efeito do intervalo entre revisões.

Ajuste a proporção conforme a prova se aproxima. Nas primeiras semanas de cada assunto, mais bloco e menos mistura. No mês final, quase tudo embaralhado, porque é o formato do caderno que vai chegar na sua mesa.

Aceite que o método pune a vaidade do controle de estudo. Planilha cheia de verde vem de lista temática, e o verde que aparece rápido demais costuma ser o que some primeiro.

"Quantas questões da sua última sessão chegaram sem o nome da matéria em cima?"

 
 
 
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Quiz da edição

No teste aplicado uma semana depois, qual foi o acerto do grupo que tinha praticado em blocos (por tipo de sólido)?

A89%
B60%
C20%
D63%

Resultado da última edição: 0% acertaram.

 
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