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Por que sonhar com a aprovação freia o estudo

Em 2002, Oettingen e Mayer viram formandos que fantasiavam o emprego mandarem menos currículos e receberem menos ofertas.

Caderno de questões aberto ao lado de um termo de posse em branco, sob luz de luminária.

Termo de posse em branco ao lado do caderno

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Uma vaga para cada 120 inscritos. Era a conta do edital de técnico judiciário que Rafael Antunes colou na porta do armário, e ela dizia que 119 de cada 120 candidatos voltariam para casa sem a posse.

Toda noite, antes de abrir o caderno, ele repetia um ritual. Fechava os olhos e se via assinando o termo de posse, de camisa social, com a mãe sentada na primeira fila do auditório.

A cena durava dois minutos e deixava um calor bom no peito. Rafael chamava aquele minuto de motivação e não abria mão dele.

Só que o caderno rendia pouco logo em seguida. Ele resolvia dez questões, sentia que a noite já tinha valido e ia dormir tranquilo, como quem já tinha chegado.

No simulado do mês, a conta não fechava. A nota de Rafael ficava parada nos mesmos 60% de acertos, e o ritual da posse seguia intacto, toda noite, sempre antes do caderno e nunca depois dele.

As psicólogas Gabriele Oettingen e Doris Mayer, num artigo de 2002 no Journal of Personality and Social Psychology, mediram o preço desse calor. Formandos que se imaginavam com a vaga conquistada mandaram menos currículos e receberam menos ofertas de emprego que os colegas que apenas julgavam provável conseguir uma.

O que separava os grupos era o tipo de pensamento. Expectativa é um julgamento: com a preparação que tenho, qual a chance de eu passar? Fantasia é uma cena: eu já passei, e como é bom.

A cena engana o corpo. A mente trata a vaga imaginada como meio caminho andado, a pressão para agir cai, e a energia que iria para a próxima questão some antes de chegar ao caderno.

Rafael não precisava parar de sonhar. Precisava trocar a ordem do sonho, e a técnica abaixo mostra como encostar a cena da posse no obstáculo que separa o candidato dela.

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I  A Técnica

O sonho encostado no obstáculo

A fantasia rende quando termina num obstáculo.

Imagine a aprovação por um minuto, depois nomeie o obstáculo dentro de você que mais atrapalha o estudo de hoje e escreva o plano para ele no formato “se acontecer X, eu faço Y”. O método se chama contraste mental (pôr o desejo e o obstáculo lado a lado na cabeça), e Gabriele Oettingen, da Universidade de Nova York, o organizou na sigla inglesa WOOP (desejo, resultado, obstáculo, plano).

A ordem importa. Primeiro vem o desejo, curto e concreto: acertar 24 de 30 questões de Português no simulado de sábado. Em seguida vem o melhor resultado possível, imaginado com detalhe, por um ou dois minutos.

Até aqui, nada difere da fantasia de Rafael. A mudança acontece no terceiro passo, quando a pessoa pergunta: o que, em mim, mais impede esse resultado?

A resposta precisa morar dentro de quem estuda. “A banca é difícil” não serve, porque não depende do candidato. “Eu pego o celular quando a questão aperta” serve, porque é um hábito que aparece toda noite e pode ser desarmado.

O quarto passo transforma o obstáculo em gatilho. A fórmula “se X, então Y” vem do psicólogo Peter Gollwitzer, marido de Oettingen, que estuda as intenções de implementação (planos que amarram uma ação a uma situação específica) desde os anos 1990.

Por que a cena sozinha atrapalha

A fantasia positiva entrega ao cérebro uma prévia da recompensa. Num estudo de 2011 no Journal of Experimental Social Psychology, Heather Barry Kappes e Gabriele Oettingen mediram a pressão arterial sistólica de voluntários e viram que ela caía quando eles fantasiavam um futuro idealizado.

Pressão menor, ali, significa menos energia disponível para agir. A pessoa sai da cena relaxada, e relaxamento é o estado errado para encarar quarenta questões de Direito Constitucional.

O contraste mental devolve a tensão útil. Ao encostar a cena no obstáculo, a mente registra a distância que falta e libera esforço na medida dela.

“Rethinking Positive Thinking: Inside the New Science of Motivation”

Gabriele Oettingen, título do livro publicado pela editora Current, 2014

O título do livro (em português, “Repensando o pensamento positivo: por dentro da nova ciência da motivação”) resume a proposta: manter o sonho e mudar o que se faz com ele.

A técnica tem uma condição. Nos estudos de Oettingen, o contraste mental aumenta o esforço quando a expectativa de sucesso é razoável; quando a chance percebida é muito baixa, ele ajuda a pessoa a largar a meta. Para o candidato, o efeito serve de filtro e mostra se o cargo escolhido cabe no tempo que ele tem.

A próxima seção mostra como Oettingen e Mayer separaram expectativa de fantasia numa turma de formandos e o que aconteceu com eles dois anos adiante.

 
 

II  O Dado

Currículos enviados, ofertas recebidas

Gabriele Oettingen e Doris Mayer publicaram em 2002 no Journal of Personality and Social Psychology que formandos com fantasias positivas sobre o emprego mandaram menos candidaturas e receberam menos ofertas dois anos depois; formandos com expectativa alta receberam mais.

O desenho separava duas perguntas que costumam andar juntas. A primeira media expectativa: os estudantes estimavam a probabilidade de achar um bom emprego após a formatura.

A segunda media fantasia. As pesquisadoras entregavam o começo de cenas sobre a busca de emprego, como a chegada a uma entrevista, e pediam que cada um completasse a história como ela se desenrolava na cabeça.

Avaliadores liam os textos e classificavam o tom das cenas, do mais negativo ao mais idealizado. Quem escrevia entrevistas perfeitas e contratos assinados ganhava nota alta de fantasia positiva.

Dois anos depois, a equipe voltou aos mesmos participantes e perguntou quantas candidaturas tinham enviado, quantas ofertas tinham recebido e quanto ganhavam.

AutorasOettingen e Mayer
Ano2002
RevistaJ. Pers. Soc. Psychology
PúblicoFormandos universitários
Medida 1Expectativa de emprego
Medida 2Cenas imaginadas
Retorno2 anos depois

Os dois tipos de pensamento puxaram para lados opostos. Expectativa alta andou junto com mais candidaturas e mais ofertas. Fantasia positiva alta andou junto com menos candidaturas, menos ofertas e salários menores.

O artigo repetiu o padrão em outros cenários. Pacientes que fantasiavam a recuperação de uma cirurgia de quadril se recuperavam pior, e estudantes que fantasiavam um romance com a pessoa desejada tinham menos chance de iniciar o relacionamento.

A explicação das autoras está no esforço. A fantasia deixa a pessoa sentir o sucesso antes da hora, e quem já sente que chegou investe menos no caminho.

A expectativa funciona por outra via. Ela nasce de experiência passada, de provas feitas e notas vistas, e assim puxa a ação: quem acha provável passar sabe que o resultado depende de estudar.

Cada noite de fantasia também é treino. O candidato que ensaia a posse sem ensaiar o caminho aprende a sentir a vitória sentado, e a sensação boa chega sem a questão resolvida.

Os limites contam. Os dados dos formandos são correlacionais, sem sorteio de quem fantasiava, e o grupo procurava emprego no mercado, sem prova de seleção. Os experimentos com sorteio vieram depois, como o da pressão arterial, e apontaram na mesma direção. Ninguém mediu candidatos de concurso: levar o achado para o edital aplica o mecanismo, sem medição direta de aprovação.

 

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III  Na Prática

Um minuto de posse e um plano

Passo 1, desejo: escreva numa linha o resultado da sessão de hoje, com número, como 24 acertos em 30 questões de Português.

Passo 2, cena: feche os olhos por um minuto e imagine o melhor resultado dessa sessão, com detalhe.

Passo 3, obstáculo: pergunte o que, em você, mais atrapalha esse resultado, e escreva o primeiro hábito que vier.

Passo 4, plano: escreva a frase “se o obstáculo aparecer, eu faço tal ação” e cole no canto da mesa.

Rafael Antunes, do edital de 120 inscritos por vaga, trabalha como auxiliar administrativo numa transportadora até as 18h e estuda das 19h30 às 22h. A cena da posse continuou, mas passou para o começo da sessão e ganhou três linhas depois dela.

O desejo da noite virou concreto: 30 questões de Português, mínimo de 24 certas. O obstáculo apareceu na primeira tentativa de nomear: quando uma questão de crase travava, a mão ia para o celular.

O plano ficou num papel colado na luminária: “se eu travar numa questão por três minutos, marco um X e passo para a próxima; o celular fica na cozinha”.

Na primeira semana, Rafael anotou num canto do caderno as vezes em que levantou para buscar o celular. A conta caiu de nove por noite para duas, e as questões marcadas com X voltavam ao final da sessão, resolvidas com calma.

Um tropeço comum é pular a cena e ir direto ao obstáculo. Sem o desejo imaginado, o obstáculo vira lista de defeitos, e a sessão começa com culpa em vez de energia.

O tropeço oposto é escolher um obstáculo de fora: a banca, o chefe, o edital atrasado. Nenhum deles cabe numa frase “se X, eu faço Y” que dependa só de quem estuda, e o plano fica sem gatilho.

A prova de que a troca funcionou aparece no caderno, quando a noite termina com as 30 questões feitas e a cena da posse continua lá, agora como o primeiro minuto de um plano.

“Qual hábito seu aparece entre a cena da aprovação e a próxima questão resolvida?”

Confira na próxima sessão de estudo:

• o desejo da sessão escrito com número de questões e de acertos;

• o obstáculo nomeado como hábito seu, sem culpar a banca;

• a frase “se X, eu faço Y” colada à vista na mesa.

 
 
 
Quiz da edição

Na edição, em que ano Gabriele Oettingen e Doris Mayer publicaram o artigo que flagrou o freio da fantasia positiva sobre formandos?

A1998
B2002
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