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ED 042
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O tópico que some quando o irmão é revisado

Anderson, Bjork e Bjork mostraram em 1994 que treinar parte de uma categoria derruba a lembrança dos exemplos vizinhos.

Fichas de estudo espalhadas numa mesa, algumas em destaque na frente e outras apagadas ao fundo.

Fichas revisadas na frente, irmãs apagadas atrás

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Uma em duas. Era a chance de um universitário lembrar, vinte minutos depois de estudar, uma palavra que ele tinha visto e nunca revisado, e foi essa linha de base que Michael Anderson, Robert Bjork e Elizabeth Bjork usaram na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), em 1994, para medir um prejuízo que ninguém procurava.

A palavra podia ser banana, estudada no par fruta e banana. O estudante via uma lista de pares assim, sempre uma categoria e um exemplo dela, e depois treinava só alguns: completava fruta e la__ três vezes, sem ver banana de novo.

Na prova final, a laranja treinada voltava fácil. A banana, que ninguém tocou, voltava pior do que uma palavra de categoria inteiramente esquecida pelo treino, como um exemplo de bebida deixado de lado.

Revisar a laranja cobrou um preço da banana. A memória tratou as duas frutas como concorrentes pela mesma pista, e a vencedora do treino empurrou a outra para trás.

Quem estuda para concurso repete o experimento toda semana sem perceber. Revisa pregão, porque caiu na última prova, e deixa concorrência e leilão para depois. Revisa crase antes de pronome e pula crase antes de horário.

Na véspera, o tópico revisado parece firme. O irmão dele, que o candidato julgava guardado desde a primeira leitura, some justo na questão que coloca os dois lado a lado.

A sensação costuma ser de branco ou de cansaço. O mecanismo medido pelos três pesquisadores aponta outra causa: a própria revisão, feita em parte da família de tópicos, baixou o acesso ao resto dela.

O remédio cabe no ciclo que você já tem, sem somar horas. Muda a forma de escolher o que entra em cada revisão e a ordem em que os irmãos voltam.

A técnica começa por enxergar o edital como famílias de tópicos que disputam a mesma pista.

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I  A Técnica

Revise a família inteira

Toda revisão escolhe, mesmo sem querer, quais tópicos de uma família ganham treino e quais ficam parados.

Revise a família inteira de tópicos na mesma sessão: se a pista que a banca usa puxa cinco respostas, as cinco passam pela busca na memória, e nenhuma fica só na releitura. Família, aqui, é o grupo de tópicos que responde à mesma pergunta de prova.

Chame a técnica de rodízio de irmãos. Cada família do edital recebe uma lista curta de membros, e cada revisão puxa todos eles, mudando qual vem primeiro.

A pista é a porta de entrada. Na questão que pergunta qual modalidade de licitação cabe ao caso, a pista é modalidade, e ela abre pregão, concorrência, concurso, leilão e diálogo competitivo, as cinco modalidades da Lei 14.133, de 2021. Treinar só pregão alarga uma porta e estreita as outras quatro.

Buscar é o verbo que decide. O prejuízo aparece quando o candidato puxa a resposta da memória, num flashcard (cartão de pergunta e resposta) ou numa questão; reler o resumo com todos os irmãos na página cobra outro preço, como a seção seguinte mostra.

Quando o irmão sofre mais

Nem todo tópico vizinho perde igual. O prejuízo cresce quando o irmão disputa a pista com força, a ponto de atrapalhar a busca pelo tópico treinado: para trazer um, a mente precisa calar o outro.

Por essa lógica, os irmãos mais expostos são os que você já conhece bem e confunde. Concorrência e pregão, ato vinculado e ato discricionário (o primeiro com conduta fixada pela lei, o segundo com margem de escolha ao administrador), prescrição e decadência.

Sofre menos o irmão que foi estudado em comparação com o treinado. Quem aprende pregão e concorrência pela diferença no critério de julgamento cria uma dupla que volta junta, e não dois rivais pela mesma vaga.

A regra prática: marque no edital as famílias em que você lembra sempre o mesmo membro e esquece os outros. Elas entram primeiro no rodízio.

"Se lembrássemos de tudo, estaríamos, na maioria das ocasiões, tão mal quanto se não lembrássemos de nada."

William James, Os Princípios de Psicologia, 1890.

James escreveu a frase para defender o esquecimento como parte do bom funcionamento da memória. A mente que abaixa o que não usa ganha agilidade, e o candidato paga a conta quando o tópico abaixado cai na prova.

Falta mostrar como o prejuízo foi medido e quanto ele pesava.

 
 

II  O Dado

Laranja treinada, banana esquecida

Michael Anderson, Robert Bjork e Elizabeth Bjork publicaram em 1994 no Journal of Experimental Psychology (revista de psicologia experimental) o artigo que batizou o efeito. Os exemplos treinados foram lembrados em cerca de 73% das vezes; os irmãos deixados sem treino, em 38%; os exemplos de categorias sem treino nenhum, em 50%.

Robert e Elizabeth Bjork, casados, dirigem laboratórios de memória na UCLA. Michael Anderson fazia doutorado no grupo e depois levou a linha de pesquisa para a Universidade de Oregon e, mais tarde, para a Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

O material eram listas de pares de categoria e exemplo. Cada estudante via oito categorias com seis exemplos cada, e depois treinava a recuperação de metade dos exemplos de metade das categorias, completando o par pelas duas primeiras letras.

Cada item treinado passava por três rodadas de busca. Vinte minutos depois, a prova dava só a categoria e pedia todos os exemplos estudados dela, treinados ou não.

EstudoAnderson, Bjork e Bjork, 1994
Título originalRemembering can cause forgetting (lembrar pode causar esquecimento)
PublicaçãoJournal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition
Materialoito categorias, seis exemplos cada
Intervalo até a provavinte minutos
Lembrança medida73% treinados, 38% irmãos, 50% sem treino

A comparação que importa põe os 38% contra os 50%. O exemplo esquecido de uma fruta rendeu menos que um exemplo de categoria que ninguém revisou, e a queda vem do treino dos vizinhos, e não da passagem do tempo, igual para todos.

Os autores chamaram o fenômeno de retrieval-induced forgetting (esquecimento induzido por recuperação) e o atribuíram à inibição (a supressão ativa de uma memória concorrente). Para trazer laranja, a mente cala banana, que também responde à pista fruta, e o silêncio dura depois do treino.

A força do irmão mudou a conta. No experimento, os exemplos muito associados à categoria, como banana para fruta, sofreram a queda; os exemplos raros quase não caíram, porque atrapalhavam pouco a busca e não precisavam ser calados.

Em 2000, o mesmo trio de pesquisadores testou a releitura. Quando os estudantes apenas reviam o par completo, sem precisar completá-lo, os irmãos não caíam, o que livra a releitura desse dano e confirma que a busca é o gatilho.

Os limites contam. Os participantes eram universitários, o material era uma lista de palavras e a prova vinha vinte minutos depois. Malcolm MacLeod e C. Neil Macrae mostraram em 2001, na revista Psychological Science, que o prejuízo se desfazia depois de 24 horas.

Por essa vida curta, o risco maior mora na revisão da véspera e da manhã da prova, quando o candidato treina só os favoritos de cada família e entra na sala com os irmãos ainda calados.

Falta levar a medição para a rotina, da revisão semanal à véspera.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  Na Prática

O rodízio de irmãos na semana

Passo 1, liste as famílias do edital: para cada disciplina, agrupe os tópicos que respondem à mesma pista de prova, como modalidades de licitação, espécies de ato administrativo ou casos de crase.

Passo 2, marque o favorito de cada família: confira no caderno de erros qual membro você acerta sempre e quais erra ou deixa em branco; o favorito é o que suas revisões já treinam demais.

Passo 3, gire a ordem na revisão: cada sessão de flashcards ou questões puxa todos os membros da família, e quem abriu a última sessão entra por último na seguinte.

Um exemplo com a família das modalidades de licitação. Segunda, cinco cartões, um por modalidade, começando por leilão. Quinta, os mesmos cinco, começando por diálogo competitivo (a modalidade para contratar solução ainda indefinida, construída em conversa com os licitantes). Sábado, questões que misturam as cinco.

O pregão, favorito de quase todo candidato porque aparece em toda prova de administrativo, vai para o último lugar da fila. Ele já tem treino de sobra, e cada rodada dele sozinho aumenta a pressão sobre os irmãos.

Na semana da prova, a regra aperta. A revisão da véspera passa por todas as famílias do edital em ritmo rápido, um cartão por membro, em vez de aprofundar os três tópicos que mais caem.

A vida curta do efeito, medida por MacLeod e Macrae, ajuda aqui. O irmão calado numa revisão de terça volta ao normal até sábado; o calado na noite anterior à prova ainda está baixo quando o caderno de questões abre.

Um tropeço comum é resolver só questões do tópico que mais cai. A frequência da banca pesa, e mesmo assim o membro raro da família precisa aparecer na mesma sessão, nem que seja num cartão.

Outro tropeço é tratar como família tópicos sem pista comum. Crase e concordância não disputam a mesma resposta; juntar as duas só ocupa tempo da sessão.

Dê ao rodízio três semanas antes de julgar. Conte, no caderno de erros, quantas questões você perdeu por lembrar só o membro favorito da família, e compare com as semanas anteriores.

"Qual tópico do seu edital você acerta sempre, e qual irmão dele você erra justo quando a questão põe os dois lado a lado?"

Confira no seu baralho de flashcards:

quantas famílias de tópicos têm cartão próprio para cada membro;

quantos dias o membro menos revisado de cada família passou sem aparecer;

se a revisão da véspera, no seu último simulado, passou por todas as famílias ou só pelas três que mais caem.

 
 
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Quiz da edição

No experimento de Anderson, Bjork e Bjork (1994) na UCLA, em que porcentagem das vezes os exemplos irmãos (mesma categoria de um exemplo treinado, mas eles próprios sem treino) foram lembrados vinte minutos depois?

A73%
B61%
C38%
D50%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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