|
|
Dez minutos escrevendo antes da prova elevam a nota
Ramirez e Beilock mediram na Science o que acontece quando o candidato despeja a preocupação no papel antes de abrir o caderno.
|
Dez minutos de papel antes do caderno
|
| ▼ |
| |
|
Vinte minutos antes de o fiscal abrir o lacre, a sala de espera tem sempre a mesma cena. Um grupo folheia resumo em pé, outro repete fórmula em voz baixa, alguém tenta decorar mais uma lei e a maioria fica parada, olhando o relógio e ensaiando por dentro a frase que resume o dia inteiro: se eu não passar agora, foi mais um ano jogado fora.
Essa frase não fica quieta. Ela ocupa espaço mental exatamente onde a prova vai precisar trabalhar, aquele espaço curto que segura enunciado longo, número intermediário de conta e as duas alternativas que sobraram depois da eliminação. Preocupação e resolução de questão disputam o mesmo lugar, e a preocupação chega primeiro.
O efeito é medido há décadas com um nome pouco simpático: o candidato ansioso não sabe menos, ele acessa menos. O conteúdo está guardado, treinado, revisado três vezes, e mesmo assim a leitura do enunciado sai truncada, a conta simples escapa e a resposta certa aparece com clareza no estacionamento, quarenta minutos depois de entregar o caderno.
A saída óbvia costuma ser a errada. Mandar o candidato relaxar, respirar fundo ou não pensar na prova é pedir para ele suprimir o pensamento, e supressão custa mais atenção do que o pensamento original consumia. Quem tenta não pensar na preocupação pensa nela com mais força, e chega à carteira mais cansado do que sentou.
Existe uma manobra diferente, quase indelicada de tão simples: em vez de calar a preocupação, escrever ela inteira num papel, com todas as letras, nos dez minutos que antecedem a prova. Sem plano de ação, sem frase motivacional, sem organizar nada. Só descrever o que está em jogo e o quanto aquilo assusta.
Parece a receita perfeita para piorar o estado de quem já está mal. Dois pesquisadores levaram a ideia para dentro de escola de verdade, com prova de verdade valendo nota de verdade, e o resultado que publicaram inverteu a intuição de qualquer professor experiente.
Antes do número, vale entender o protocolo exato, porque ele é curto, tem regras estranhas e falha inteiro quando o candidato improvisa a versão que parece mais produtiva.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Técnica
Dez minutos de papel na sala de espera
|
|
Dez minutos escrevendo o próprio medo, logo antes do exame, devolvem ao candidato ansioso a nota que o estudo dele já sustentava.
Nos dez minutos anteriores à prova, escreva à mão, em texto corrido, tudo o que você está sentindo sobre aquele exame, sem parar para corrigir nada. É o protocolo inteiro, e ele cabe numa folha de rascunho.
O objeto do texto é a preocupação, não a matéria. Nada de resumo, nada de fórmula, nada de revisão de última hora. A folha recebe frases como estou com medo de repetir o erro do último simulado, ou minha família toda sabe que eu estou fazendo essa prova hoje.
Escreva do jeito mais direto que conseguir, inclusive feio. Ortografia, letra e concordância não têm função nenhuma aqui, e parar para arrumar frase interrompe justamente o despejo que faz o exercício funcionar.
Não transforme o texto em plano. A tentação de virar a folha em estratégia é enorme, e ela mata o efeito: assim que você começa a escrever vou fazer as fáceis primeiro, saiu da descrição do medo e entrou de novo no ensaio da prova.
Também não escreva promessa nem consolo. Frases do tipo vai dar tudo certo funcionam como negação e devolvem o pensamento reprimido dois minutos depois, geralmente na hora de ler o primeiro enunciado.
|
A folha não existe para você resolver a preocupação, existe para tirar ela do lugar onde a prova precisa trabalhar.
|
Dez minutos é o tamanho testado, e vale respeitar o cronômetro nas duas pontas. Menos que isso não esvazia; muito mais que isso vira remoer, e remoer é exatamente o estado que você foi ali evitar.
Escreva à mão, em papel, e não no celular. O aparelho abre notificação, abre grupo de estudo, abre o comentário de alguém que diz que a prova vai ser pesada, e a mão no papel sustenta o ritmo lento que o exercício pede.
Guarde a folha na mochila ou jogue fora, tanto faz, mas não releia antes de entrar. A releitura devolve o conteúdo à cabeça, e o objetivo era o contrário: deixar a preocupação registrada fora de você.
O que sustenta o protocolo é a distância que a escrita cria. Preocupação pensada roda em círculo e nunca termina; preocupação escrita ganha começo, meio e fim, ocupa um espaço definido no papel e para de disputar atenção com o enunciado.
Treine o exercício antes de um simulado cronometrado, e não estreie no dia da prova. A primeira vez costuma ser desconfortável, com a mão travando nas duas primeiras linhas, e você não quer descobrir esse desconforto na manhã que decide o ano.
|
|
|
|
|
II O Dado
B menos vira B mais na turma de biologia
|
|
Gerardo Ramirez e Sian Beilock testaram a ideia primeiro em laboratório e depois dentro de escola, com prova real valendo nota real, em vez de perguntar aos alunos se tinham gostado do exercício.
|
O trabalho saiu em 2011 na revista Science, com o título Writing About Testing Worries Boosts Exam Performance in the Classroom. A parte de laboratório colocou universitários num teste de matemática sob pressão, com plateia, câmera e prêmio em dinheiro dependendo do desempenho da dupla.
Antes do segundo teste, metade dos participantes escreveu dez minutos sobre o que sentia a respeito da prova. A outra metade ficou sentada em silêncio pelo mesmo tempo, e essa diferença de dez minutos foi a única coisa que separou os dois grupos.
| Grupo que ficou sentado, variação sob pressão | queda de 12% |
| Grupo que escreveu dez minutos antes | alta de 5% |
| Alunos ansiosos no campo, sem escrever | média B menos |
| Alunos ansiosos no campo, escrevendo antes | média B mais |
| Duração do exercício em todas as condições | 10 minutos |
A parte mais interessante veio depois, numa turma de biologia do ensino médio, na semana da prova final. Os alunos foram divididos entre escrever sobre as preocupações com o exame e escrever sobre um assunto neutro que não cairia na prova.
|
"Expressive writing before an exam improved exam performance for highly test anxious students."
Gerardo Ramirez e Sian L. Beilock, Writing About Testing Worries Boosts Exam Performance in the Classroom, Science, 2011
|
Entre os alunos com nível baixo de ansiedade, o exercício não mudou quase nada. Quem não estava carregando preocupação não tinha nada para despejar, e os dez minutos de escrita renderam o que a intuição espera: nenhuma diferença mensurável na nota.
Entre os alunos mais ansiosos, a diferença apareceu inteira. Os que escreveram sobre o medo tiraram, em média, notas de faixa superior às dos colegas igualmente ansiosos que escreveram sobre tema neutro, e a distância entre ansioso e tranquilo praticamente sumiu.
Essa última frase é o achado de verdade. Antes do exercício, o nível de ansiedade previa a nota com clareza incômoda; depois, deixou de prever. O que o papel mudou não foi o conhecimento, foi o acesso a ele durante a prova.
O mecanismo proposto conversa com a literatura de memória de trabalho, terreno que Beilock já vinha escavando em pesquisa sobre desempenho sob pressão. A preocupação consome capacidade de processamento, e liberar essa capacidade devolve ao aluno a nota que o estudo dele já sustentava.
Vale registrar o que o estudo não promete. Ele não transforma quem não estudou em aprovado, não dá ganho a quem entra tranquilo, e não substitui uma linha sequer de revisão de conteúdo feita com antecedência.
|
|
|
|
|
III Na Prática
Monte o ritual dos dez minutos finais
|
|
Passo 1, reservar o horário: chegue ao local com no mínimo trinta minutos de folga e trave o bloco de dez minutos que termina pouco antes da abertura dos portões da sala. Esse bloco não é para revisar nada.
Passo 2, preparar o material na véspera: deixe na mochila duas folhas em branco e uma caneta separada do resto. Procurar papel na hora consome o tempo do exercício e coloca você conversando com desconhecido ansioso na fila.
Passo 3, escrever sem parar até o cronômetro apitar: ponha dez minutos no relógio, comece pela frase que mais incomoda e não levante a caneta. Se a ideia acabar, repita a última frase até uma nova aparecer.
Escreva em primeira pessoa e no presente. Estou com medo de travar na primeira questão funciona melhor que uma reflexão distante sobre ansiedade em concursos, porque o exercício depende de nomear o que está acontecendo agora.
Inclua o custo real, com nome e sobrenome. Se a preocupação é dizer para a sua mãe que não passou de novo, escreva a cena exata, porque é ela que estava rodando em segundo plano e é ela que precisa sair do lugar.
Termine antes de entrar na sala, não dentro dela. Nos últimos minutos antes da distribuição do caderno, a sala já está em silêncio e escrever ali chama atenção do fiscal, além de misturar o exercício com o começo da prova.
Não converse com ninguém entre a folha e a carteira. A conversa da fila devolve preocupação nova, geralmente a de outra pessoa, e desfaz em trinta segundos o que os dez minutos acabaram de esvaziar.
Repita o ritual em todo simulado cronometrado, inclusive nos que você faz em casa. O exercício precisa estar automático no dia da prova, e um protocolo estreado sob pressão máxima raramente sai como deveria.
Anote a sua nota com e sem o ritual ao longo de um mês de simulados. O ganho do estudo apareceu nos alunos mais ansiosos, e só o seu próprio registro diz se você é desse grupo ou se entra na prova tranquilo e não precisa da folha.
Aplique o mesmo protocolo antes de prova oral, entrevista e discursiva. A situação que aperta a memória de trabalho é sempre a mesma: desempenho avaliado, com plateia real ou imaginada, e resultado que muda alguma coisa importante na sua vida.
"O que você escreveria na folha dez minutos antes da sua próxima prova?"
|
|
|
|
| |
|