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ED 007

Dez minutos escrevendo antes da prova elevam a nota

Ramirez e Beilock mediram na Science o que acontece quando o candidato despeja a preocupação no papel antes de abrir o caderno.

Caderno aberto com folha manuscrita e uma caneta sobre uma carteira vazia, sem pessoas.

Dez minutos de papel antes do caderno

 

Vinte minutos antes de o fiscal abrir o lacre, a sala de espera tem sempre a mesma cena. Um grupo folheia resumo em pé, outro repete fórmula em voz baixa, alguém tenta decorar mais uma lei e a maioria fica parada, olhando o relógio e ensaiando por dentro a frase que resume o dia inteiro: se eu não passar agora, foi mais um ano jogado fora.

Essa frase não fica quieta. Ela ocupa espaço mental exatamente onde a prova vai precisar trabalhar, aquele espaço curto que segura enunciado longo, número intermediário de conta e as duas alternativas que sobraram depois da eliminação. Preocupação e resolução de questão disputam o mesmo lugar, e a preocupação chega primeiro.

O efeito é medido há décadas com um nome pouco simpático: o candidato ansioso não sabe menos, ele acessa menos. O conteúdo está guardado, treinado, revisado três vezes, e mesmo assim a leitura do enunciado sai truncada, a conta simples escapa e a resposta certa aparece com clareza no estacionamento, quarenta minutos depois de entregar o caderno.

A saída óbvia costuma ser a errada. Mandar o candidato relaxar, respirar fundo ou não pensar na prova é pedir para ele suprimir o pensamento, e supressão custa mais atenção do que o pensamento original consumia. Quem tenta não pensar na preocupação pensa nela com mais força, e chega à carteira mais cansado do que sentou.

Existe uma manobra diferente, quase indelicada de tão simples: em vez de calar a preocupação, escrever ela inteira num papel, com todas as letras, nos dez minutos que antecedem a prova. Sem plano de ação, sem frase motivacional, sem organizar nada. Só descrever o que está em jogo e o quanto aquilo assusta.

Parece a receita perfeita para piorar o estado de quem já está mal. Dois pesquisadores levaram a ideia para dentro de escola de verdade, com prova de verdade valendo nota de verdade, e o resultado que publicaram inverteu a intuição de qualquer professor experiente.

Antes do número, vale entender o protocolo exato, porque ele é curto, tem regras estranhas e falha inteiro quando o candidato improvisa a versão que parece mais produtiva.

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I  A Técnica

Dez minutos de papel na sala de espera

Dez minutos escrevendo o próprio medo, logo antes do exame, devolvem ao candidato ansioso a nota que o estudo dele já sustentava.

Nos dez minutos anteriores à prova, escreva à mão, em texto corrido, tudo o que você está sentindo sobre aquele exame, sem parar para corrigir nada. É o protocolo inteiro, e ele cabe numa folha de rascunho.

O objeto do texto é a preocupação, não a matéria. Nada de resumo, nada de fórmula, nada de revisão de última hora. A folha recebe frases como estou com medo de repetir o erro do último simulado, ou minha família toda sabe que eu estou fazendo essa prova hoje.

Escreva do jeito mais direto que conseguir, inclusive feio. Ortografia, letra e concordância não têm função nenhuma aqui, e parar para arrumar frase interrompe justamente o despejo que faz o exercício funcionar.

Não transforme o texto em plano. A tentação de virar a folha em estratégia é enorme, e ela mata o efeito: assim que você começa a escrever vou fazer as fáceis primeiro, saiu da descrição do medo e entrou de novo no ensaio da prova.

Também não escreva promessa nem consolo. Frases do tipo vai dar tudo certo funcionam como negação e devolvem o pensamento reprimido dois minutos depois, geralmente na hora de ler o primeiro enunciado.

A folha não existe para você resolver a preocupação, existe para tirar ela do lugar onde a prova precisa trabalhar.

Dez minutos é o tamanho testado, e vale respeitar o cronômetro nas duas pontas. Menos que isso não esvazia; muito mais que isso vira remoer, e remoer é exatamente o estado que você foi ali evitar.

Escreva à mão, em papel, e não no celular. O aparelho abre notificação, abre grupo de estudo, abre o comentário de alguém que diz que a prova vai ser pesada, e a mão no papel sustenta o ritmo lento que o exercício pede.

Guarde a folha na mochila ou jogue fora, tanto faz, mas não releia antes de entrar. A releitura devolve o conteúdo à cabeça, e o objetivo era o contrário: deixar a preocupação registrada fora de você.

O que sustenta o protocolo é a distância que a escrita cria. Preocupação pensada roda em círculo e nunca termina; preocupação escrita ganha começo, meio e fim, ocupa um espaço definido no papel e para de disputar atenção com o enunciado.

Treine o exercício antes de um simulado cronometrado, e não estreie no dia da prova. A primeira vez costuma ser desconfortável, com a mão travando nas duas primeiras linhas, e você não quer descobrir esse desconforto na manhã que decide o ano.

 
 

II  O Dado

B menos vira B mais na turma de biologia

Gerardo Ramirez e Sian Beilock testaram a ideia primeiro em laboratório e depois dentro de escola, com prova real valendo nota real, em vez de perguntar aos alunos se tinham gostado do exercício.

O trabalho saiu em 2011 na revista Science, com o título Writing About Testing Worries Boosts Exam Performance in the Classroom. A parte de laboratório colocou universitários num teste de matemática sob pressão, com plateia, câmera e prêmio em dinheiro dependendo do desempenho da dupla.

Antes do segundo teste, metade dos participantes escreveu dez minutos sobre o que sentia a respeito da prova. A outra metade ficou sentada em silêncio pelo mesmo tempo, e essa diferença de dez minutos foi a única coisa que separou os dois grupos.

Grupo que ficou sentado, variação sob pressãoqueda de 12%
Grupo que escreveu dez minutos antesalta de 5%
Alunos ansiosos no campo, sem escrevermédia B menos
Alunos ansiosos no campo, escrevendo antesmédia B mais
Duração do exercício em todas as condições10 minutos

A parte mais interessante veio depois, numa turma de biologia do ensino médio, na semana da prova final. Os alunos foram divididos entre escrever sobre as preocupações com o exame e escrever sobre um assunto neutro que não cairia na prova.

"Expressive writing before an exam improved exam performance for highly test anxious students."

Gerardo Ramirez e Sian L. Beilock, Writing About Testing Worries Boosts Exam Performance in the Classroom, Science, 2011

Entre os alunos com nível baixo de ansiedade, o exercício não mudou quase nada. Quem não estava carregando preocupação não tinha nada para despejar, e os dez minutos de escrita renderam o que a intuição espera: nenhuma diferença mensurável na nota.

Entre os alunos mais ansiosos, a diferença apareceu inteira. Os que escreveram sobre o medo tiraram, em média, notas de faixa superior às dos colegas igualmente ansiosos que escreveram sobre tema neutro, e a distância entre ansioso e tranquilo praticamente sumiu.

Essa última frase é o achado de verdade. Antes do exercício, o nível de ansiedade previa a nota com clareza incômoda; depois, deixou de prever. O que o papel mudou não foi o conhecimento, foi o acesso a ele durante a prova.

O mecanismo proposto conversa com a literatura de memória de trabalho, terreno que Beilock já vinha escavando em pesquisa sobre desempenho sob pressão. A preocupação consome capacidade de processamento, e liberar essa capacidade devolve ao aluno a nota que o estudo dele já sustentava.

Vale registrar o que o estudo não promete. Ele não transforma quem não estudou em aprovado, não dá ganho a quem entra tranquilo, e não substitui uma linha sequer de revisão de conteúdo feita com antecedência.

 
 

III  Na Prática

Monte o ritual dos dez minutos finais

Passo 1, reservar o horário: chegue ao local com no mínimo trinta minutos de folga e trave o bloco de dez minutos que termina pouco antes da abertura dos portões da sala. Esse bloco não é para revisar nada.

Passo 2, preparar o material na véspera: deixe na mochila duas folhas em branco e uma caneta separada do resto. Procurar papel na hora consome o tempo do exercício e coloca você conversando com desconhecido ansioso na fila.

Passo 3, escrever sem parar até o cronômetro apitar: ponha dez minutos no relógio, comece pela frase que mais incomoda e não levante a caneta. Se a ideia acabar, repita a última frase até uma nova aparecer.

Escreva em primeira pessoa e no presente. Estou com medo de travar na primeira questão funciona melhor que uma reflexão distante sobre ansiedade em concursos, porque o exercício depende de nomear o que está acontecendo agora.

Inclua o custo real, com nome e sobrenome. Se a preocupação é dizer para a sua mãe que não passou de novo, escreva a cena exata, porque é ela que estava rodando em segundo plano e é ela que precisa sair do lugar.

Termine antes de entrar na sala, não dentro dela. Nos últimos minutos antes da distribuição do caderno, a sala já está em silêncio e escrever ali chama atenção do fiscal, além de misturar o exercício com o começo da prova.

Não converse com ninguém entre a folha e a carteira. A conversa da fila devolve preocupação nova, geralmente a de outra pessoa, e desfaz em trinta segundos o que os dez minutos acabaram de esvaziar.

Repita o ritual em todo simulado cronometrado, inclusive nos que você faz em casa. O exercício precisa estar automático no dia da prova, e um protocolo estreado sob pressão máxima raramente sai como deveria.

Anote a sua nota com e sem o ritual ao longo de um mês de simulados. O ganho do estudo apareceu nos alunos mais ansiosos, e só o seu próprio registro diz se você é desse grupo ou se entra na prova tranquilo e não precisa da folha.

Aplique o mesmo protocolo antes de prova oral, entrevista e discursiva. A situação que aperta a memória de trabalho é sempre a mesma: desempenho avaliado, com plateia real ou imaginada, e resultado que muda alguma coisa importante na sua vida.

"O que você escreveria na folha dez minutos antes da sua próxima prova?"

 
 
 
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ED 009 · amanhã às 17:17

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Quiz da edição

No estudo de campo dentro da turma de biologia, o que aconteceu com a nota dos alunos mais ansiosos que escreveram sobre a preocupação com a prova, comparados aos que escreveram sobre um tema neutro?

AA nota caiu de B mais para B menos
BA nota subiu de B menos para B mais
CA nota ficou igual entre os dois grupos, sem diferença
DA nota só melhorou na prova seguinte, não naquela
 
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