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O esboço de tópicos que Kellogg testou em 1988

Kellogg viu que montar tópicos antes de redigir melhorou o texto e aliviou a atenção; o rascunho corrido não ajudou.

Folha de rascunho com um roteiro de tópicos na margem, ao lado da folha definitiva em branco.

Roteiro de tópicos na margem do rascunho

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Uma em 40. Era a chance de Camila Rezende, pela relação de inscritos por vaga do edital, de chegar à posse de analista judiciário, e a discursiva de 30 linhas valia quase metade da nota final.

Camila escrevia bem. Lia editoriais, sabia crase, conhecia a lei seca do cargo. Diante da folha pautada, porém, começava pela primeira linha e seguia em frente, ajustando o rumo enquanto escrevia.

No simulado de sábado, o tema pedia uma análise da Lei de Acesso à Informação. Ela escreveu a introdução em oito minutos, gastou vinte no primeiro argumento e percebeu, na linha 22, que o segundo argumento contradizia o anterior.

Apagar estava fora de cogitação. A prova era à caneta, e o tempo restante cobria só a conclusão. A correção devolveu 4,5 de 10, com uma nota na margem: “texto sem progressão”.

O tropeço de Camila tem nome na psicologia da escrita. Enquanto redige, a cabeça faz três trabalhos simultâneos: decidir o que dizer, transformar a ideia em frase e conferir se a frase serve. A atenção disponível é uma só, e os três brigam por ela.

Quem planeja durante a escrita paga esse preço linha a linha. Cada parágrafo novo exige escolher o argumento, achar as palavras e vigiar o português, tudo junto, com o relógio da prova correndo.

Na discursiva, o custo aparece no fim. O candidato chega à linha 22 cansado, com a tese esquecida no alto da página, e descobre o desvio quando a caneta já gravou o erro no papel e falta tempo para outro caminho.

O psicólogo americano Ronald T. Kellogg testou duas saídas para esse aperto num experimento publicado em 1988. Uma delas melhorou o texto final. A outra, a preferida de muita gente que estuda para concurso, deixou o resultado igual.

A diferença entre as duas cabe em poucos minutos de prova, e a técnica abaixo mostra como gastá-los antes da primeira linha da folha definitiva.

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I  A Técnica

Cinco minutos de roteiro na margem

O texto bom nasce de um roteiro feito antes da primeira frase.

Antes de escrever a discursiva, gaste de 5 a 8 minutos montando na folha de rascunho um roteiro de tópicos: a tese numa linha, um tópico por parágrafo e a palavra do edital que cada parágrafo precisa citar. Kellogg chamou a técnica de outline (esboço de tópicos, a lista ordenada de ideias montada antes do texto) e a comparou com a escrita direta.

O roteiro dispensa frases completas. Cada linha leva de três a seis palavras, o suficiente para lembrar o argumento sem gastar tempo com redação.

Para uma discursiva de 30 linhas em quatro parágrafos, o roteiro de Camila ficaria assim na margem: tese, transparência como regra e sigilo como exceção; segundo bloco, prazo de 20 dias para responder ao pedido; terceiro bloco, as hipóteses de sigilo; conclusão, a tese retomada pelo dever do servidor.

A ordem dos tópicos resolve o problema da linha 22. Quando o segundo argumento contradiz o primeiro, a contradição aparece no roteiro, em duas linhas vizinhas, e custa um risco de lápis. Na folha definitiva, custaria a nota.

Por que o roteiro alivia a cabeça

Kellogg partia de um modelo de escrita com três processos: planejar (gerar e ordenar ideias), traduzir (converter a ideia em frase) e revisar. Os três disputam a mesma memória de trabalho (o espaço curto onde a mente segura informação enquanto opera sobre ela).

O esboço tira o planejamento da hora da redação. Com os tópicos prontos, a mente passa a cuidar quase só da frase e da revisão, e a atenção liberada vai para coesão, concordância e vocabulário, itens que a banca pontua.

O rascunho corrido promete o mesmo alívio por outro caminho. A pessoa escreve sem cuidar da forma e passa a limpo depois. Na prova de concurso, o tempo raramente cobre duas redações completas, e o experimento de Kellogg mostrou que a versão passada a limpo nem saía melhor.

“The Psychology of Writing”

Ronald T. Kellogg, título do livro publicado pela Oxford University Press, 1994

O livro (em português, “A psicologia da escrita”) reúne os experimentos de Kellogg sobre atenção e esforço ao escrever, inclusive o de 1988, e trata a escrita como uma tarefa de pensamento que consome atenção do começo ao fim.

A técnica tem um limite de tempo. Roteiro que passa de dez minutos numa prova de 60 vira outra redação, e o candidato volta ao aperto que queria evitar.

O mesmo cuidado serve para o tamanho do roteiro: quatro a cinco linhas bastam para uma resposta de 30 linhas, e cada linha a mais é tempo tirado da folha definitiva.

 
 

II  O Dado

Esboço contra rascunho corrido

Ronald T. Kellogg publicou em 1988 no Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition que estudantes que montaram um esboço de tópicos antes de redigir escreveram textos de qualidade superior; quem fez rascunho corrido não superou quem escreveu direto.

Os voluntários eram universitários, e a tarefa era escrever um texto argumentativo em condições controladas, com tempo marcado e tema igual para todos.

O desenho cruzava duas decisões. Metade dos participantes montava um esboço antes de começar, e a outra metade partia direto para o texto. Dentro de cada grupo, parte escrevia um rascunho livre para passar a limpo depois, e parte já escrevia a versão final.

Para medir o esforço, Kellogg usou uma tarefa secundária (um sinal sonoro tocado em intervalos irregulares, ao qual o voluntário respondia apertando um botão). Quanto mais demorada a resposta, mais atenção a escrita estava consumindo naquele trecho.

A cada sinal, os voluntários também diziam o que estavam fazendo: planejando, redigindo ou revisando. O registro mostrava como cada grupo distribuía o tempo entre os três processos.

AutorRonald T. Kellogg
Ano1988
RevistaJ. Exp. Psych.: LMC
PúblicoUniversitários
GruposEsboço e rascunho
Medida 1Qualidade do texto
Medida 2Reação ao sinal sonoro

O esboço venceu. Os textos de quem planejou por tópicos receberam notas mais altas dos avaliadores, e esses escritores passaram mais tempo redigindo e menos tempo replanejando durante a tarefa.

O rascunho corrido não trouxe ganho de qualidade. Escrever primeiro sem cuidado e reescrever depois produziu textos equivalentes aos de quem escreveu a versão final direto.

A medida de esforço trouxe o segundo achado. Com o esboço pronto, a redação exigia menos atenção, sinal de que a cabeça trabalhava com folga para cuidar da frase.

Kellogg interpretou o resultado como sobrecarga de atenção. Quem escreve sem plano faz os três processos juntos; o esboço separa o planejamento e deixa a redação com menos trabalho simultâneo.

Os limites contam. Os voluntários escreviam sem nota em jogo, sem o relógio de uma prova de concurso e sobre temas que não eram jurídicos. Ninguém repetiu o experimento com discursivas de banca, e levar o achado ao edital aplica o mecanismo sem medição direta de aprovação.

O que se sabe com segurança é a direção: separar o plano da redação ajudou, e redigir duas vezes não ajudou.

Para o candidato, a lição prática é de tempo. Os minutos gastos no roteiro voltam na redação, porque a frase sai sem a pausa para decidir o próximo argumento.

 

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III  Na Prática

O roteiro de 6 minutos no rascunho

Passo 1, tese: leia o comando da questão duas vezes e escreva numa linha a resposta central, em até 12 palavras.

Passo 2, blocos: divida o espaço em parágrafos (para 30 linhas, quatro blocos de 6 a 9) e escreva um tópico de até seis palavras para cada bloco.

Passo 3, palavras do edital: junto a cada tópico, anote o termo que o examinador espera ler, como “prazo de 20 dias” ou “sigilo”.

Passo 4, teste: leia só os tópicos em sequência e confira se cada um leva ao seguinte sem contradizer a tese.

Camila Rezende passou a cronometrar o roteiro nos simulados. Nas duas primeiras semanas, ele levava 11 minutos; na terceira, caiu para 6, porque os tópicos ficaram mais curtos.

No simulado seguinte, o tema pedia uma discussão sobre teletrabalho no serviço público. O roteiro mostrou, ainda na margem, que o terceiro tópico repetia o segundo com outras palavras, e ela trocou o bloco por um parágrafo sobre controle de produtividade.

A nota subiu de 4,5 para 7,0. O comentário de margem mudou para “boa progressão”, e Camila terminou a folha definitiva com quatro minutos sobrando para revisar acentos.

Um tropeço comum é transformar o roteiro em redação miniatura, com frases completas. O tempo some e a vantagem medida por Kellogg desaparece junto, porque o candidato volta a redigir duas vezes.

O tropeço oposto é escrever um roteiro vago: “introdução, desenvolvimento, conclusão”. Essas três palavras organizam qualquer texto e, justamente por servirem a todos, não decidem argumento nenhum; o tópico precisa dizer o que o parágrafo afirma.

Para treinar fora da prova, monte só o roteiro de três temas por semana, sem redigir, e compare com o espelho de correção da banca quando ele sair.

Na conferência, marque quantos tópicos seus batem com os itens que o espelho pontua. Esse número, anotado semana a semana, mostra se o roteiro está escolhendo os argumentos que a banca procura.

“Quanto tempo você gasta escolhendo o argumento enquanto já escreve a folha definitiva?”

Confira no próximo simulado:

• a tese escrita em até 12 palavras na folha de rascunho;

• um tópico de até seis palavras para cada parágrafo planejado;

• o tempo do roteiro anotado, entre 5 e 8 minutos.

 
 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, em que ano Ronald T. Kellogg publicou o experimento que comparou o esboço de tópicos com o rascunho corrido?

A1994
B1988
C1982
D1991

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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