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ED 029
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O erro que você marcou com certeza absoluta

Butterfield e Metcalfe mediram em 2001 que o erro dado com alta confiança, uma vez corrigido, foi o que mais voltou certo no reteste.

Caderno de simulado aberto com uma alternativa marcada com força a caneta e um risco por cima, luz focal quente, fundo escuro, sem pessoas.

A marcação convicta e o risco por cima

 

Uma em 5. Era a chance de o candidato acertar por sorte a questão de improbidade administrativa, e ele nem precisou da sorte para se sentir seguro: marcou a letra B em onze segundos, com a convicção de quem tinha lido o artigo três vezes na semana anterior. O gabarito trazia a letra D.

A reação dele foi a que todo mundo tem. Leu a correção duas vezes, conferiu se o gabarito estava certo, resmungou uma frase feia e passou o resto da noite remoendo como tinha marcado aquilo com tanta cara de dono.

Vinte e dois dias depois, a mesma pegadinha voltou num simulado de outra banca, com o enunciado reescrito. Ele marcou a D sem hesitar, e conseguiria explicar o motivo em voz alta para um colega.

Na mesma folha antiga havia uma questão de controle externo que ele tinha respondido encolhido, escolhendo entre duas alternativas na moeda mental. Essa ele errou de novo, exatamente como da primeira vez.

As duas questões saíram da mesma folha, passaram pelo mesmo gabarito comentado e receberam o mesmo tempo de leitura. O que separou o destino delas foi o tamanho da certeza que ele tinha no instante da marcação.

Erro cometido com convicção cria um choque quando a correção chega. Você esperava acerto, recebeu erro, e o susto obriga a cabeça a olhar de frente para a informação certa, porque ela contradiz algo que você tinha como resolvido.

Erro cometido na dúvida não produz choque nenhum. A correção apenas preenche um espaço que já estava vazio, você concorda de leve, vira a página e nada obriga a sua memória a fazer força.

Brady Butterfield e Janet Metcalfe mediram esse contraste em 2001, no Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, pedindo a estudantes que avaliassem a própria confiança antes de receber a resposta certa.

A consequência prática chega na sua mesa toda vez que uma questão duvidosa aparece: você arrisca a marcação que acha correta ou deixa em branco para não sujar a estatística do simulado?

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I  A Técnica

Marque a alternativa e assuma a certeza

Errar com convicção dói mais na hora e paga melhor no reteste.

Responda todas as questões do simulado, inclusive as que você não tem como confirmar, escreva ao lado de cada uma o quanto confia na sua marcação, e trate a correção das que você deu como certas e errou como o item mais importante da sua revisão. Questão pulada não produz erro, e sem erro registrado não existe o choque que fixa a informação certa.

Deixar em branco parece prudente e sai caro. A folha em branco protege o seu número de acertos daquele dia, ao preço de esconder de você exatamente qual conteúdo a sua cabeça está processando errado.

A escala de confiança precisa ser escrita antes do resultado, nunca depois. Use três marcas na margem, e escreva a marca no segundo em que fechar a alternativa: A para a resposta que você defenderia numa banca, B para a escolha entre duas alternativas, C para o palpite cego.

A marca A errada é o material mais valioso do seu dia de estudo. Ela aponta uma crença firme e equivocada, daquelas que a sua leitura de resumo nunca corrige, porque você não revisa aquilo que já considera dominado.

Como corrigir o erro convicto

Separe as questões marcadas com A e erradas numa página própria, antes de olhar o restante da correção. Você vai encontrar entre três e oito por simulado, e elas merecem o triplo do tempo que você daria a uma questão de palpite cego.

Em cada uma, escreva com todas as letras a versão que morava na sua cabeça e a versão que a lei ou a doutrina sustenta, uma embaixo da outra. O confronto por escrito é o que dá ao choque um lugar para se fixar, porque obriga a nomear a crença antiga antes de substituí-la.

"Erros cometidos com alta confiança foram corrigidos com mais frequência do que erros cometidos com baixa confiança."

Brady Butterfield e Janet Metcalfe, Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 2001

Procure a origem da crença errada, porque ela quase sempre tem endereço. Uma aula assistida em velocidade dobrada, um resumo de cursinho com redação ambígua, uma súmula antiga que mudou de texto: nomear a fonte impede que a mesma informação torta volte por outro caminho.

O desconforto de errar com convicção tem uso prático e curto prazo de validade. Ele dura o tempo da correção, e é justamente esse período de constrangimento que o candidato experiente aproveita para escrever a versão certa, enquanto o iniciante fecha o caderno para parar de se sentir burro.

Não confunda confiança com arrogância na hora de marcar. Confiança aqui é uma medição honesta do seu estado mental, e um simulado inteiro marcado com A revela apenas que você não está medindo nada.

A objeção legítima aparece rápido: reforçar a resposta errada ao escrevê-la não estraga a memória? A medição de 2001 e as que vieram depois responderam essa pergunta com números, e o desenho delas cabe em poucos parágrafos.

 
 

II  O Dado

O tamanho do susto na hora da correção

Brady Butterfield e Janet Metcalfe publicaram no Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, em 2001, um experimento em que estudantes responderam perguntas de conhecimento geral, avaliaram a confiança em cada resposta e receberam a correção: no reteste, os erros dados com alta confiança foram corrigidos com mais frequência do que os erros dados com baixa confiança.

O procedimento é simples de descrever. Cada participante respondia a pergunta, dizia numa escala o quanto acreditava estar certo, via a resposta correta e, depois, respondia de novo o conjunto para que os pesquisadores contassem quantos erros tinham virado acerto.

A contagem do reteste inverteu a expectativa de quase todo mundo. Se a memória funcionasse por força bruta de repetição, o erro seguro deveria ser o mais teimoso, e ele foi o que mais saiu do lugar.

EstudoBrady Butterfield e Janet Metcalfe, Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 2001
Título originalErrors committed with high confidence are hypercorrected
Desenhoestudantes responderam perguntas de conhecimento geral, avaliaram a própria confiança, receberam a resposta certa e refizeram o teste
Medidaproporção de erros que viraram acerto no reteste, separada por nível de confiança declarado
Efeito medidoerros cometidos com alta confiança foram corrigidos com mais frequência do que erros cometidos com baixa confiança

O nome dado ao achado descreve bem o que acontece: hipercorreção (correção acima do esperado). O termo aponta uma correção maior do que a que o erro confiante deveria receber pela lógica da repetição, e virou o rótulo padrão dessa linha de pesquisa.

Andrew Butler, Lisa Fazio e Elizabeth Marsh voltaram ao tema em 2011, na Psychonomic Bulletin & Review, e testaram a durabilidade do ganho. A vantagem dos erros confiantes ainda aparecia numa aplicação feita uma semana depois da correção, ou seja, o efeito atravessa o fim de semana.

Andrew Butler, Jeffrey Karpicke e Henry Roediger III já tinham mostrado, no mesmo periódico da série em 2008, o papel decisivo da devolutiva (a resposta certa que volta para quem respondeu) nas marcações de baixa confiança. Sem ver a correção, o acerto inseguro se perde; com a correção, ele fica.

Vale reconhecer o limite do que foi testado. Eram perguntas de conhecimento geral, em laboratório, com participantes universitários e correção controlada pelos pesquisadores, não um simulado de cento e vinte questões com peso de eliminação na segunda fase.

O que atravessa para a sua mesa é a direção do resultado e a atitude que ela recomenda. Marcar a alternativa em que você acredita, mesmo arriscando um erro convicto, transforma a sua folha em um mapa de crenças testáveis, e o mapa é o que a correção conserta.

 

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III  Na Prática

Onde guardar os erros que você jurava acertar

Passo 1, responda todas e anote a confiança: nenhuma questão em branco no simulado de treino, e A, B ou C escritos na margem antes de o gabarito aparecer. Alternativa eliminada com fundamento já vale marcação, porque a folha precisa registrar a sua melhor aposta.

Passo 2, abra a correção pelo bloco dos erros convictos: junte as questões com marca A e resultado errado numa página separada, e comece a revisão por elas, com o cronômetro mais generoso do seu dia.

Passo 3, escreva as duas versões lado a lado: de um lado a regra que você tinha na cabeça, do outro a regra que a fonte oficial sustenta, e embaixo o endereço da crença antiga, seja uma aula, um resumo ou uma súmula de texto alterado.

Meça a sua calibragem uma vez por semana, contando percentuais simples. Divida os acertos pelas marcações A, depois pelas B, depois pelas C: um candidato calibrado acerta quase tudo que marcou com A, e quem acerta 70% das marcações A tem um problema de leitura antes de ter um problema de conteúdo.

Trate a marcação C com outra estratégia. Palpite cego acertado não ensina nada e some do seu radar, então ele vai para a lista de conteúdo a estudar do zero, sem passar pela correção comentada rápida.

Reaplique os erros convictos entre sete e dez dias depois, dentro de um bloco novo. A medição de Butler, Fazio e Marsh sugere que o ganho aguenta uma semana, e a reaplicação nesse prazo transforma a suspeita de aprendizado em prova de aprendizado.

Preserve o registro do erro, nunca apague a marcação antiga da folha. Risque por cima e escreva a certa ao lado, porque o par visível das duas respostas é o que devolve o choque original toda vez que você folheia o caderno.

Na prova de verdade, a política muda conforme o edital. Havendo desconto por erro, o palpite cego deixa de compensar; sem desconto, nenhuma questão fica em branco, e a marcação A continua sendo a que você deve conferir primeiro quando o gabarito oficial sair.

"Quantas das suas marcações mais seguras desta semana você já viu confirmadas por uma fonte oficial?"

Confira hoje, na sua própria folha:

quantas questões você deixou em branco no último simulado de treino;

quantas questões erradas do último bloco carregavam a sua marca de maior confiança;

quantas dessas questões têm, escrita no caderno, a versão errada que morava na sua cabeça.

 
 
 

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Quiz da edição

No experimento de Butterfield e Metcalfe, publicado em 2001, o que aconteceu no reteste com os erros que os participantes tinham marcado com ALTA confiança, comparados aos de baixa confiança?

AForam esquecidos com mais velocidade pelos participantes
BPermaneceram errados na mesma proporção dos demais
CForam corrigidos com mais frequência
DFicaram de fora da segunda rodada do teste

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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ED 031 · amanhã às 17:17

Efeito de hipercorreção

Butterfield e Metcalfe mostraram em 2001 que o erro cometido com alta confiança é o mais corrigido no…

 
 
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