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O rabisco de 40 segundos que dobrou a memória
Wammes, Meade e Fernandes mediram em 2016: desenhar a palavra fez lembrar cerca do dobro de copiá-la várias vezes.
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O traço torto que a memória guarda
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Uma em duas. Era a chance de cada palavra da lista cair no pedido de desenho, e não no de escrita, para os estudantes de graduação que entravam no laboratório de psicologia da Universidade de Waterloo, no Canadá.
A palavra surgia na tela junto com a ordem. Se a ordem fosse escrever, o estudante copiava a palavra várias vezes, sem parar, até o tempo acabar. Se fosse desenhar, rabiscava o objeto: uma maçã, um violão, uma bota. Cada palavra tinha 40 segundos.
Para quem caía no desenho, a sorte parecia pequena. Ninguém ali era ilustrador, e o traço saía torto. Copiar a palavra de novo e de novo parecia o caminho mais seguro para gravá-la, porque é o que a escola ensina desde o primeiro caderno de caligrafia.
Depois de uma tarefa curta para distrair a cabeça, veio o pedido sem aviso: escreva todas as palavras de que se lembrar. Jeffrey Wammes, Melissa Meade e Myra Fernandes publicaram o resultado em 2016, no Quarterly Journal of Experimental Psychology: as palavras desenhadas voltaram cerca de duas vezes mais que as copiadas.
O traço feio não atrapalhou. A beleza do desenho quase não mudava a lembrança.
Agora pense no candidato que precisa guardar os prazos do processo civil. Ele copia no caderno "apelação, 15 dias úteis" dez vezes, depois mais dez. A mão cansa, a página enche, e na semana seguinte o prazo do agravo se mistura com o da apelação.
A cópia repetida dá sensação de trabalho feito. O esforço existe, mas fica quase todo na mão, e pouco chega ao significado da palavra.
O rabisco obriga a pensar no que a palavra quer dizer, em como ela aparece no mundo e em que forma ganha no papel. São três caminhos de memória abertos em 40 segundos, contra um só da cópia.
Para quem estuda para concurso, a pergunta prática é onde o desenho cabe numa matéria feita de artigos, prazos e competências. A resposta começa pelo que acontece na cabeça durante o rabisco.
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I A Técnica
Desenhe o sentido, não a letra
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Toda informação que precisa voltar na prova pode ganhar uma figura, mesmo quando parece feita só de números e siglas.
Desenhe em até 40 segundos o que o prazo ou a competência faz, e não a palavra que o nomeia. Chame a regra de rabisco do sentido: a figura precisa mostrar a ação, o sujeito ou o objeto, nunca repetir as letras do termo.
O rabisco do sentido trabalha em três frentes ao mesmo tempo. A primeira é a elaboração (pensar no significado e ligá-lo ao que já se sabe): para desenhar embargos de declaração, o candidato precisa lembrar que eles pedem ao juiz que esclareça a própria decisão.
A segunda é o movimento da mão. O gesto de traçar uma figura é diferente do gesto de repetir letras, e a memória guarda também o caminho que a mão percorreu.
A terceira é a imagem. O desenho pronto vira uma figura que o olho examina enquanto a mão termina o traço, e a figura se soma à palavra.
Por que a cópia fica para trás
Copiar a mesma palavra dez vezes usa só a segunda frente, e de forma pobre: a mão repete o mesmo percurso, e a atenção sai da tarefa depois da terceira linha. O candidato termina a página sem ter pensado no conteúdo nenhuma vez.
Allan Paivio, da Universidade de Western Ontario, reuniu em 1971, no livro Imagery and Verbal Processes (imagem e processos verbais), a teoria da dupla codificação: a informação guardada ao mesmo tempo como palavra e como imagem tem duas portas de volta à lembrança. O desenho abre a segunda porta à força.
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"Nada está no intelecto sem antes ter passado pelos sentidos."
Tomás de Aquino, Questões Disputadas sobre a Verdade, questão 2, artigo 3, século XIII
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Tomás de Aquino falava do conhecimento em geral, e o rabisco do sentido aplica a mesma ideia à mesa de estudo. O prazo que só passou pela mão como letra volta fraco; o prazo que virou figura tem mais de um caminho de volta.
A regra tem um limite claro. Palavra concreta, como maçã, vira desenho sem esforço. Termo abstrato, como competência privativa, pede uma figura inventada, e a invenção precisa sair do significado, e não de uma associação solta que você esqueça na semana seguinte.
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II O Dado
Maçã, violão e o dobro de palavras
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Jeffrey Wammes, Melissa Meade e Myra Fernandes, do departamento de psicologia da Universidade de Waterloo, publicaram em 2016 no Quarterly Journal of Experimental Psychology uma série de experimentos com listas de palavras concretas. Desenhar cada palavra por 40 segundos fez os estudantes lembrarem cerca do dobro das palavras escritas repetidamente no mesmo intervalo.
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O artigo se chama The drawing effect (o efeito do desenho), e o título virou o nome do fenômeno. Os participantes eram estudantes de graduação, e a lista trazia objetos fáceis de imaginar, do tipo que qualquer pessoa sabe esboçar em poucos traços.
O teste final era de recordação livre (escrever de memória, em qualquer ordem, tudo o que se lembrar, sem pistas). Entre o estudo e o teste, os voluntários faziam uma tarefa curta de distração, para que a lembrança não viesse direto da memória de curtíssimo prazo.
| Estudo | Wammes, Meade e Fernandes, 2016 |
| Título original | The drawing effect: evidence for reliable and robust memory benefits in free recall |
| Publicação | Quarterly Journal of Experimental Psychology |
| Tempo por palavra | 40 segundos |
| Comparação principal | desenhar contra escrever várias vezes |
| Resultado | cerca do dobro de palavras lembradas com o desenho |
Os autores sabiam que a primeira objeção seria a imagem pronta. Talvez bastasse olhar uma figura do objeto. Eles testaram a hipótese: ver uma imagem do objeto ajudou menos que desenhá-lo. Imaginar o objeto de olhos abertos, sem traçar nada, também ficou atrás.
Outra objeção era a do pensamento profundo. Talvez bastasse pensar nas características do objeto. Listar por escrito as propriedades físicas da palavra, como cor e formato, também perdeu para o desenho.
A vantagem apareceu mesmo quando o tempo de desenho foi encurtado em experimentos seguintes do mesmo artigo. O efeito não dependia de caprichar.
Em 2017, o mesmo trio publicou na revista Acta Psychologica um teste com termos e definições, mais parecido com o que cai em prova. Desenhar o significado da definição ajudou a lembrar dela, e a vantagem cresceu quando o desenho exigia pensar no sentido, e não copiar o termo.
Em 2018, Meade, Wammes e Fernandes levaram o teste a adultos mais velhos, na revista Experimental Aging Research. O desenho ajudou também nesse grupo, justamente o que mais perde memória para palavras soltas com a idade.
Os limites contam. As listas eram de palavras concretas, o teste vinha minutos depois do estudo, e ninguém mediu a lembrança meses mais tarde, como pede um edital. O que não se sabe é quanto do ganho sobrevive até a data da prova, porque nenhum desses estudos acompanhou os voluntários por tanto tempo.
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