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ED 038
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O distrator que volta como resposta

Roediger e Marsh mostraram em 2005 que ler mais alternativas erradas numa prova fez parte delas reaparecer como resposta num teste seguinte.

Caderno de questões aberto em mesa escura, alternativas riscadas a lápis e anotações na margem, luz focal quente, sem pessoas.

Alternativas riscadas no caderno de questões

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Uma em cinco. É a chance de acertar no chute uma questão de cinco alternativas, e as outras quatro foram escritas por alguém pago para que parecessem certas.

O elaborador da banca chama essas quatro de distratores (alternativas erradas montadas para atrair quem sabe o conteúdo pela metade). Cada uma costuma trazer um pedaço verdadeiro: o artigo de lei certo com o prazo trocado, a fórmula correta aplicada ao caso errado, o autor real com a obra de outro.

Na hora da prova, o estrago do distrator parece terminar quando você marca a letra errada. A questão sai do seu placar, você confere o gabarito e segue adiante. O prejuízo contado é um ponto.

O prejuízo que ninguém conta chega semanas depois. A frase errada que você leu com atenção, pesou e quase marcou continua guardada, e às vezes volta como resposta quando a mesma pergunta aparece sem alternativas, numa discursiva ou numa revisão de cabeça.

Quem estuda por questões lê centenas de distratores por semana. Um caderno de duzentas questões de cinco alternativas põe oitocentas afirmações falsas diante dos seus olhos, todas redigidas com a cara de verdade que a banca trabalhou para dar a elas.

A maior parte some sem deixar marca. Uma fração pequena gruda, e gruda justamente nos temas em que você chegou sem base, porque ali a alternativa errada encontra a memória vazia e ocupa o lugar da certa.

O treino por questões continua sendo um dos melhores métodos de estudo disponíveis, e nada aqui recomenda abandoná-lo. O ajuste está no que acontece depois de cada questão respondida, e ele tem três partes que cabem numa sessão comum de caderno.

A primeira parte é uma técnica de correção que desmonta o distrator logo após a marcação, enquanto ele ainda está fresco na página e na cabeça.

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I  A Técnica

Desmonte a alternativa errada

Distrator lido e largado sem correção vira candidato a resposta futura.

Depois de cada questão, antes de passar à seguinte, releia a alternativa certa e escreva ao lado de cada alternativa errada que você considerou a palavra exata que a torna falsa. A marcação troca a frase inteira, que ficaria guardada como estava, por um contraste curto entre o certo e o errado.

Chame a técnica de correção por contraste. Ela exige três gestos: circular a alternativa certa, riscar o trecho falso das erradas que tentaram você e anotar na margem a versão verdadeira do trecho, em até cinco palavras.

O limite de cinco palavras tem razão prática. Anotação longa vira cópia do enunciado, e a cópia repete o distrator em vez de corrigi-lo; a anotação curta obriga você a achar o ponto exato em que a frase mente.

Um exemplo de direito administrativo mostra o gesto. A alternativa diz que a ação punitiva da administração federal prescreve em três anos; você risca «três» e escreve «cinco, Lei 9.873 de 1999». A frase falsa sai da página com o defeito marcado.

Nem toda alternativa pede o mesmo trabalho. As que você descartou em dois segundos, sem hesitar, podem ficar como estão, porque a memória já as tratou como erro. O risco mora nas que você pesou, releu e quase marcou.

Onde o distrator gruda mais

Questão chutada merece atenção dobrada. Quando você marca sem saber, qualquer alternativa lida entrou sem filtro, inclusive a certa, e o chute certo também precisa de correção antes de valer como aprendizado.

Questão de assunto ainda não estudado é o segundo ponto fraco. Resolver questão como primeiro contato com a matéria expõe você ao distrator sem nenhuma versão verdadeira guardada para competir com ele.

"O intelecto humano, quando adota uma opinião, arrasta todas as demais para apoiá-la e concordar com ela."

Francis Bacon, Novum Organum, 1620

O gabarito comentado ajuda, mas não substitui a marcação. Ler o comentário do professor passa pela alternativa certa de relance; escrever o trecho corrigido com a sua letra força a comparação que a leitura rápida pula.

Falta o dado que justifica o cuidado. Um laboratório americano de psicologia mediu, em 2005, quantas alternativas erradas de uma prova voltavam como resposta num teste seguinte, e como essa conta mudava com a quantidade de opções.

 
 

II  O Dado

Washington mediu o eco da prova

Henry Roediger III, da Universidade Washington em St. Louis, e Elizabeth Marsh publicaram em 2005 no Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition um experimento com provas de múltipla escolha de duas, quatro e seis alternativas. Quanto mais alternativas erradas os estudantes leram na prova, mais delas reapareceram como resposta num teste posterior sem opções.

O desenho tinha três etapas. Os estudantes leram parte dos textos de não ficção e deixaram outra parte sem ler; depois fizeram uma prova de múltipla escolha sobre todos eles; por fim, responderam a um teste de recordação com pistas (pergunta aberta, sem alternativas).

Parte das perguntas do teste final nunca tinha aparecido na prova. Essas serviram de linha de base: mostraram quanto os estudantes acertavam e erravam sem ter passado por alternativa nenhuma daquele item.

O saldo geral saiu positivo. Ter feito a prova aumentou os acertos no teste final, o chamado efeito de teste (a melhora de memória que vem de ser testado sobre um conteúdo). O custo apareceu na coluna das respostas erradas.

EstudoHenry Roediger III e Elizabeth Marsh, 2005
Título originalThe positive and negative consequences of multiple-choice testing
PublicaçãoJournal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition
Desenhoprova de múltipla escolha com 2, 4 ou 6 alternativas, seguida de teste de recordação sem alternativas
Medidaacertos e respostas vindas de distratores da prova no teste final
Efeito medidoa prova aumentou os acertos, e as respostas vindas de distratores cresceram com o número de alternativas lidas

A intrusão (resposta errada que veio de uma alternativa lida na prova) cresceu conforme a quantidade de distratores. Quem enfrentou seis alternativas por questão levou mais respostas falsas para o teste final do que quem enfrentou duas.

O efeito pesou mais nos textos que os estudantes não tinham lido. Sem conhecimento prévio, a alternativa errada escolhida ou apenas considerada encontrou espaço livre, e o teste posterior a devolveu como se fosse lembrança.

O mecanismo proposto pelos autores é direto. Ler uma afirmação falsa, mesmo sabendo que ela está numa lista de opções, cria um traço de memória dela; quando a pergunta volta sem alternativas, esse traço compete com a resposta certa e às vezes vence.

Roediger voltou ao problema em 2008, com Andrew Butler, na revista Memory & Cognition. Receber a resposta certa depois da prova reduziu as intrusões vindas dos distratores e ainda ampliou a vantagem do teste sobre quem não foi testado.

Vale anotar os limites. Foram universitários, textos curtos e intervalos curtos, sem a pressão de um edital, e a prova real de concurso usa cinco alternativas, número que não entrou no desenho de 2005.

Falta transformar o achado em rotina de caderno, com passos que cabem numa sessão comum de questões e que atacam as duas condições em que o distrator mais grudou: falta de base e falta de correção.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  Na Prática

Três passos no caderno de questões

Passo 1, estude antes de resolver: leia a teoria do tópico, mesmo resumida, antes de abrir as questões dele, porque o distrator pesou mais onde não havia conhecimento prévio.

Passo 2, corrija antes de fechar o caderno: confira o gabarito ao fim de cada questão ou de cada bloco curto, e faça a marcação por contraste nas alternativas que tentaram você.

Passo 3, revise pela pergunta aberta: dois dias depois, cubra as alternativas das questões erradas e responda de cabeça; se voltar a frase do distrator, o trecho corrigido da margem entra de novo.

A ordem dos passos importa. Fechar o caderno com questões sem conferir deixa cada distrator guardado sem contestação, e a queda das intrusões medida em 2008 dependeu justamente de a resposta certa chegar.

Cursinho que vende lista de mil questões sem gabarito comentado entrega metade do método. A outra metade é a correção, e ela custa cerca de um minuto por questão errada ou chutada.

Simulado completo pede ajuste. No dia da prova simulada você não corrige nada durante as horas de prova; a correção por contraste entra no dia seguinte, e todas as questões chutadas contam como erradas para esse fim.

Questões de certo ou errado, do estilo Cebraspe, trazem um distrator só por item, e ele chega sozinho, sem a alternativa certa ao lado. A marcação vale igual: item errado ganha na margem a palavra que o torna falso.

Um tropeço comum é circular a letra certa e seguir. O círculo guarda a letra, e o que volta na discursiva é o conteúdo; sem o trecho falso riscado, a frase do distrator segue inteira na página e na memória.

Outro tropeço é o caderno de erros que copia as alternativas erradas por extenso. Ele multiplica a exposição ao distrator; o registro útil guarda a pergunta, a resposta certa e a palavra que desmontava a errada.

"Quantas das questões que você chutou na última semana ganharam correção escrita na margem?"

Confira no seu último caderno de questões:

quantas questões chutadas têm a alternativa certa circulada;

quantas alternativas erradas que você quase marcou têm a palavra falsa riscada;

quantos tópicos você resolveu sem ter lido a teoria antes.

 
 
 
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Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

No experimento de 2005 sobre provas de múltipla escolha, qual foi a etapa final que os estudantes cumpriram?

AUma segunda prova de múltipla escolha, com as mesmas alternativas
BA leitura de parte dos textos de não ficção
CUm teste de recordação com pistas, sem alternativas
DA leitura do gabarito comentado de cada questão

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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