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As perguntas que ninguém sabia responder
Richland, Kornell e Kao testaram em 2009 se chutar respostas erradas antes de ler o material muda o que fica na cabeça depois.
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Errar antes de ler mudou o que ficou
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Duas da tarde, o candidato abre a apostila de direito constitucional no capítulo de controle de constitucionalidade. Ele nunca viu aquele conteúdo na vida. Faz o que todo mundo faz: começa a ler da primeira linha, com marca-texto na mão, tentando entender enquanto avança. Duas horas depois fecha o capítulo com quatro páginas amarelas e a sensação morna de quem entendeu na hora e não sabe se vai lembrar.
Existe um gesto de trinta segundos que ele pulou, e o gesto parece burro demais para funcionar. Antes de ler uma linha sequer, olhar as perguntas do fim do capítulo e tentar responder cada uma delas sem ter lido nada. Chutar. Errar tudo. Só depois abrir o texto.
A objeção aparece na hora e ela é razoável. Responder pergunta de matéria que você não estudou é perder tempo com resposta errada, e resposta errada é justamente aquilo que todo professor manda evitar para não fixar bobagem na cabeça. A intuição diz que o erro suja a memória, e que o certo é ver a informação correta primeiro, limpa, sem contaminação.
A intuição erra o alvo aqui. Durante um chute impossível não acontece a gravação da resposta errada, acontece um efeito mais útil: a cabeça procura, não encontra, e fica com o buraco aberto. Buraco aberto muda o jeito como o texto é lido dois minutos depois. A frase que responde a pergunta deixa de ser mais uma linha do parágrafo e vira a peça que faltava no lugar que ficou vazio.
O nome técnico desse gesto é pré-teste, e ele tem uma diferença dura em relação ao teste comum. O teste comum vem depois do estudo e mede o que ficou. O pré-teste vem antes, quando é matematicamente impossível acertar, e não mede nada. Ele existe só para preparar o terreno da leitura que vem em seguida.
Um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos levou essa ideia ao laboratório em 2009 com um desenho honesto: comparar quem tentou responder e errou contra quem ganhou o mesmo tempo extra estudando o material direito. Não foi uma comparação contra ficar parado, foi contra a alternativa que qualquer candidato escolheria.
A técnica que vem a seguir não exige material novo, não exige aplicativo e não toma tempo do seu cronograma. Ela só inverte a ordem de duas etapas que você já faz no mesmo capítulo.
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I A Técnica
Chute antes de abrir o material
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A ordem entre a pergunta e a leitura muda o que fica.
Antes de ler um conteúdo novo, escreva no papel uma tentativa de resposta para três a cinco perguntas sobre ele, sabendo que você vai errar todas, e só então comece a leitura. O erro não é efeito colateral do método, é o método.
De onde tirar as perguntas quando você não conhece o assunto. As mais fáceis estão no próprio material: os títulos das seções viram pergunta com uma troca de palavra, e o questionário de fim de capítulo, quando existe, já vem pronto. Serve também o índice do edital, que lista os tópicos exatamente na linguagem da banca.
O tamanho certo do chute é uma frase por pergunta. Não vale escrever "não sei", não vale deixar em branco e não vale pular para a leitura por vergonha do palpite ruim. A tentativa precisa acontecer de verdade, com caneta no papel, porque é o esforço de buscar que abre o espaço na memória, e esforço mental sem registro escapa em segundos.
Trinta segundos por pergunta é o teto. O pré-teste não é hora de raciocinar sobre a matéria, é hora de descobrir na pele que você não sabe. Passar dois minutos tentando deduzir a resposta de um assunto inédito gasta o tempo que deveria ir para a leitura, e o ganho não cresce junto.
Vale separar essa técnica do teste de retenção, que é outro mecanismo. Fazer questões depois de estudar mede e fortalece o que já entrou, e continua valendo. O pré-teste trabalha antes, sobre material que ainda não existe na sua cabeça, e o benefício dele aparece na leitura seguinte, não na nota do chute.
Uma regra de bolso mantém a técnica viável em semana cheia. Aplique o pré-teste no conteúdo inédito e difícil, aquele que você abre pela primeira vez, e deixe fora dele a revisão do que já foi visto. Cinco perguntas por capítulo novo, uma vez por dia, é o volume que sobrevive a três meses de estudo.
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A informação certa entra melhor no lugar que uma pergunta errada acabou de abrir.
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Existe um ganho secundário que ninguém anuncia. Depois de chutar cinco respostas, você lê o capítulo com uma lista concreta de dívidas, e a leitura passiva de marca-texto vira leitura de caçada. A diferença de atenção entre esses dois modos de ler é visível já na primeira página.
Cuidado com a versão exagerada do método. Encher a folha com vinte perguntas antes de cada leitura transforma o preparo em tarefa maior que o estudo, cansa antes de começar e faz o hábito morrer na terceira semana. O parâmetro que importa é a existência da tentativa, não a quantidade dela.
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II O Dado
Um texto sobre visão e perguntas impossíveis
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Lindsey Richland, Nate Kornell e Liche Sean Kao publicaram em 2009, no Journal of Experimental Psychology Applied, uma série de experimentos em que estudantes universitários tentavam responder perguntas sobre um texto antes de terem qualquer acesso a ele.
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O desenho é simples de contar. Os participantes iam ler um texto de divulgação científica sobre visão e percepção de cor, com informações factuais espalhadas ao longo dele. Antes da leitura, parte do grupo recebeu perguntas sobre o conteúdo e teve que escrever uma resposta, sem nenhuma chance real de acerto, já que o material ainda não tinha sido apresentado.
O grupo de comparação é o que dá peso ao estudo. Em vez de deixar as outras pessoas paradas, os pesquisadores deram a elas o mesmo tempo extra que o pré-teste consumia, só que gasto estudando o próprio material, com os trechos relevantes destacados. A pergunta que o experimento responde não é se o pré-teste ganha do nada, é se ele ganha de mais tempo de leitura.
Depois da fase de estudo veio o teste final, com as mesmas perguntas aplicadas a todos. A medida que interessa é quanta informação do texto cada grupo conseguiu recuperar, comparando os trechos que tinham sido alvo de pergunta prévia com os que não tinham.
| Publicação | Journal of Experimental Psychology Applied, 2009 |
| Autores | Richland, Kornell e Kao |
| Material | texto de divulgação sobre visão e cor |
| Comparação | pré-teste com erro garantido contra tempo extra de estudo |
| Medida | acerto no teste final, por trecho |
O grupo que tentou responder antes lembrou mais das informações que tinham sido perguntadas. O efeito apareceu apesar de todas as respostas iniciais estarem erradas, e apareceu contra um grupo que teve exatamente o mesmo tempo total com o material. Errar antes rendeu mais que ler mais.
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"Tentativas de recuperação malsucedidas podem melhorar a aprendizagem posterior do material."
Lindsey Richland, Nate Kornell e Liche Sean Kao, Journal of Experimental Psychology Applied, 2009
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O conjunto de experimentos foi além do resultado bruto e testou explicações concorrentes. Os autores verificaram se o ganho vinha apenas de o pré-teste sinalizar quais trechos eram importantes, e o efeito continuou de pé em condições que controlavam esse atalho de atenção. O esforço de buscar a resposta parece contar por si.
Vale registrar o tamanho do que foi provado, para não vender o que o estudo não vende. São experimentos de laboratório com estudantes universitários, texto expositivo curto e intervalo de teste medido em minutos, não meses de cronograma de concurso com legislação seca. O achado é sólido no seu recorte e continua sendo um recorte.
O que sustenta a leitura é um mecanismo que a literatura de memória já conhecia por outro caminho. A tentativa de recuperar uma informação, mesmo fracassada, ativa uma rede de conceitos próximos e cria um estado de busca em aberto, e a informação correta encontrada logo depois se ancora nessa rede em vez de flutuar solta. A pergunta é o gancho, e o texto é o que se pendura nele.
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