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Celular em outra sala rende mais que celular desligado
Ward, Duke, Gneezy e Bos mediram na Universidade do Texas o que muda quando o aparelho sai da mesa e vai para outro cômodo.
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A mesa sem o aparelho por perto
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São nove da noite, a mesa está limpa, o edital aberto na página certa e o cronômetro pronto para o primeiro bloco de cinquenta minutos. O celular está ali no canto, mudo, virado para baixo, tela apagada. Nenhuma notificação vai aparecer, e você combinou consigo mesmo que só olha na pausa.
O bloco começa e a leitura anda. Em algum ponto do terceiro parágrafo do enunciado, uma parte pequena da sua cabeça faz um cálculo silencioso: será que alguém respondeu. Você não pega o aparelho, não desbloqueia, não perde um segundo de relógio. Mas a frase precisou ser lida de novo.
O custo não está na notificação. Ele está na decisão contínua de não olhar. Segurar uma tentação exige a mesma capacidade curta que segura enunciado longo, número intermediário de conta e o par de alternativas que sobrou depois da eliminação. O aparelho não precisa tocar para cobrar pedágio.
A saída que todo mundo tenta é a mesma: desligar. Modo avião, tela para baixo, som no zero, aparelho até dentro da gaveta da própria mesa. É a versão que parece disciplinada, dá sensação de controle e mantém o objeto por perto, ao alcance da mão, caso alguma emergência apareça.
Quatro pesquisadores de marketing e psicologia resolveram medir se a versão disciplinada funciona mesmo. Em vez de perguntar aos participantes se eles se sentiam distraídos, colocaram quase novecentas pessoas em testes cronometrados de memória e de raciocínio, variando uma única coisa entre os grupos: onde o celular estava.
O resultado que apareceu incomoda quem estuda com o aparelho por perto. A diferença que mais mexeu na pontuação não foi ligado contra desligado, nem tela para cima contra tela para baixo. Foi a distância física entre a pessoa e o próprio telefone, medida em metros e paredes.
Antes do número, vale entender a regra prática que sai do estudo, porque ela é curta, tem duas condições que a maioria quebra sem perceber e falha inteira quando a pessoa negocia consigo mesma.
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I A Técnica
A regra do outro cômodo antes de sentar
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Levar o celular para outro cômodo antes do bloco devolve ao candidato a capacidade mental que o aparelho na mesa consome em silêncio.
Antes de começar o bloco de estudo, leve o celular para fora do cômodo em que você vai estudar e deixe ele lá até o cronômetro apitar. É a regra inteira, e ela não pede nenhum aplicativo.
O ponto não é desligar, é afastar. Aparelho desligado dentro da mochila, embaixo da carteira ou na gaveta continua ocupando lugar na sua cabeça, porque ele continua alcançável em dois segundos e a sua cabeça sabe disso.
Escolha um destino fixo e sempre o mesmo. Cozinha, quarto dos fundos, corredor, tanto faz, desde que exija levantar e atravessar uma porta. Destino fixo tira a decisão do momento em que você está com preguiça de andar dez passos.
Deixe o aparelho com o som ligado, se você tiver responsabilidade real com alguém. Emergência de verdade atravessa parede: um telefone tocando na cozinha chega até a sua mesa. O que não atravessa é a curiosidade de conferir se o grupo respondeu.
Não negocie a versão intermediária. Bolso, mesa do lado, mochila fechada aos seus pés e cima do armário do mesmo cômodo são todas a mesma coisa para efeito prático, e todas mantêm o aparelho dentro do seu raio de decisão.
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A pergunta certa não é se o celular está ligado, é quantos passos você teria que dar para pegar ele.
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Combine a regra com um cronômetro visível. Um bloco fechado, com hora de começar e de acabar, transforma a ausência do aparelho em algo com prazo, e prazo é o que faz a cabeça parar de perguntar quando vai poder olhar.
Reserve a conferência para a pausa, e confira em pé, longe da mesa. Trazer o telefone de volta para a superfície de estudo na pausa de cinco minutos desmonta a regra inteira, porque ele quase nunca volta sozinho para o outro cômodo depois.
Avise as duas ou três pessoas que realmente podem precisar de você. Uma frase simples, dizendo que você responde a cada cinquenta minutos, resolve a maior parte da culpa que faz o candidato manter o aparelho por perto durante o estudo.
Se você mora em espaço pequeno e não tem outro cômodo, use a maior distância possível com uma barreira. Aparelho em cima do guarda-roupa, dentro de uma caixa fechada, ou na casa do vizinho de quarto durante o bloco: o critério é o esforço de recuperar, não o metro exato.
Aplique a mesma regra na véspera da prova e no dia dela. A memória de trabalho que você vai precisar às oito da manhã é a mesma que passou a madrugada dividindo espaço com o aparelho na mesa de cabeceira.
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II O Dado
Quase novecentos universitários no teste do Texas
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Adrian Ward, Kristen Duke, Ayelet Gneezy e Maarten Bos publicaram em 2017 um experimento que separou os participantes só pela posição do próprio celular, sem mexer em mais nada.
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O estudo saiu no Journal of the Association for Consumer Research com o título Brain Drain: The Mere Presence of One's Own Smartphone Reduces Available Cognitive Capacity. O trabalho de campo foi feito com estudantes da Universidade do Texas em Austin.
Os participantes chegavam ao laboratório e recebiam a instrução de deixar o telefone em silêncio, sem vibração. Em seguida, o sorteio decidia onde o aparelho ficaria: sobre a mesa com a tela para baixo, no bolso ou na bolsa, ou em outra sala.
Depois vinham dois testes cronometrados de capacidade mental. Um media a memória de trabalho, com a pessoa resolvendo continhas enquanto guardava letras na cabeça para repetir na ordem no fim. O outro media raciocínio fluido, com sequências de figuras a completar.
| Participantes no experimento principal | 548 |
| Total de participantes nos estudos do artigo | cerca de 800 |
| Posições sorteadas para o aparelho | mesa, bolso, outra sala |
| Melhor desempenho nos dois testes | grupo da outra sala |
| Pior desempenho nos dois testes | grupo da mesa |
A ordem do resultado é o que interessa. Quem ficou com o telefone em outra sala pontuou acima de quem ficou com ele no bolso, e quem estava com ele no bolso pontuou acima de quem tinha o aparelho sobre a mesa, mesmo com a tela virada para baixo.
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"The mere presence of these devices reduces available cognitive capacity."
Adrian F. Ward, Kristen Duke, Ayelet Gneezy e Maarten W. Bos, Brain Drain: The Mere Presence of One's Own Smartphone Reduces Available Cognitive Capacity, Journal of the Association for Consumer Research, 2017
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Num dos experimentos, os pesquisadores pediram que parte dos participantes desligasse o aparelho por completo. Desligar não apagou a diferença: o que continuou prevendo a pontuação foi a posição, e não o estado de ligado ou desligado.
Os participantes também responderam o quanto tinham pensado no telefone durante os testes. A maioria relatou quase nada, inclusive no grupo da mesa, o que mostra que o custo aparece na pontuação antes de aparecer na percepção de quem está fazendo a prova.
A explicação proposta pelos autores é a de atenção limitada. Manter uma tentação alcançável e não pegar ela é trabalho mental, e esse trabalho consome parte da mesma capacidade que o teste ia cobrar dali a pouco.
Vale registrar os limites. O ganho medido é de capacidade disponível num teste cronometrado, não de nota de vestibular, os participantes eram universitários americanos e replicações posteriores encontraram efeitos de tamanhos diferentes conforme o desenho do experimento.
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III Na Prática
Monte a distância entre você e o aparelho
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Passo 1, escolher o destino de hoje: antes de sentar, defina o cômodo em que o celular vai ficar e leve ele até lá com o cronômetro já configurado. A escolha acontece em pé, nunca no meio do bloco.
Passo 2, fechar o bloco no relógio de mesa: use cronômetro de cozinha, relógio de pulso ou o timer do computador de estudo. Cronômetro dentro do próprio telefone é a desculpa mais comum para deixar o aparelho ao alcance.
Passo 3, conferir só na pausa e em pé: quando apitar, levante, vá até o aparelho, responda o necessário ali mesmo e volte sem ele. O telefone não faz o caminho de volta até a mesa em nenhuma hipótese.
Comece com blocos de cinquenta minutos e uma pausa de dez. A primeira semana costuma render duas ou três vontades fortes de conferir por bloco, e a distância resolve todas elas pelo simples custo de levantar.
Trate o notebook do estudo com o mesmo critério. Aba de rede social aberta em segundo plano é o celular na mesa em outra forma, e fechar a aba antes de começar custa cinco segundos.
Monte a versão da biblioteca e da sala de aula. Mochila no armário guarda-volumes na entrada, ou aparelho entregue ao colega da mesa ao lado durante o bloco, resolvem o problema em ambiente onde não existe outro cômodo disponível.
Registre a sua contagem de questões por bloco durante duas semanas. Uma coluna com o aparelho na mesa e outra com ele no outro cômodo dizem, no seu caso concreto, quanto a distância vale em rendimento.
Refaça a regra para o simulado cronometrado em casa. Prova de quatro horas com o celular na mesa treina exatamente a divisão de atenção que você não vai querer no dia do exame.
Prepare a logística da véspera. Carregador no outro cômodo tira o aparelho da cabeceira, e a noite anterior à prova é o pior momento possível para ler mensagem de grupo de estudo às onze da noite.
No dia da prova, deixe o telefone no carro ou no guarda-volumes assim que chegar. Aparelho lacrado dentro da mochila embaixo da carteira ainda está ao seu alcance, e a sua cabeça passa cinco horas sabendo exatamente onde ele está.
"Onde o seu celular vai ficar no seu próximo bloco de estudo?"
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