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A prova a 32 graus perde 10% de aprovação

Jisung Park mediu em 2022 milhões de provas Regents em Nova York: a sala quente derruba a chance de passar.

Termômetro de parede marcando 32 graus ao lado de uma carteira escolar com uma prova e um lápis.

O termômetro ao lado da prova

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Uma em 4. É a chance de acertar no chute uma questão de múltipla escolha com quatro alternativas, e em junho milhões de adolescentes de Nova York encaram esse tipo de questão nas provas Regents (exames estaduais que o aluno precisa passar para receber o diploma do ensino médio).

A nota mínima para passar costuma ser 65 de 100. A prova cai numa data fixa, numa sala fixa, num horário fixo. O aluno não escolhe o dia, e muito menos o clima daquele dia.

Junho em Nova York pode amanhecer a 20 graus e chegar a 33 no meio da tarde. Grande parte das escolas públicas da cidade funcionava sem ar-condicionado nas salas de aula durante os anos medidos.

O economista Jisung Park juntou essas peças. Cruzou as notas de cerca de 1 milhão de alunos com a temperatura registrada nas estações meteorológicas no dia e na hora de cada prova.

O resultado saiu em 2022 no Journal of Human Resources: segundo Park, fazer a prova a 32 graus em vez de 22 derrubou em cerca de 10% a chance de aprovação naquela matéria.

O mesmo aluno, com a mesma preparação, rendeu menos porque o termômetro subiu. Ninguém ali desaprendeu álgebra entre a manhã fresca e a tarde abafada. O corpo gastou energia para se resfriar, e a atenção pagou a conta.

Agora troque a escola do Bronx pelo quarto de quem estuda para concurso no Brasil. Janela virada para o oeste, telhado de fibrocimento, ventilador de mesa empurrando ar quente de um lado para outro.

O candidato senta às 14h, lê três vezes o mesmo artigo de Constituição e culpa a própria cabeça. A cabeça está boa. A sala está a 31 graus, e ninguém mediu.

O calor que derruba a prova também derruba o estudo que prepara para ela, e esse custo some porque não aparece em nota nenhuma do dia.

A técnica abaixo começa por um objeto barato: um termômetro em cima da mesa de estudo.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Técnica

O termômetro em cima da mesa

Sala quente rouba raciocínio sem dar aviso.

Meça a temperatura da sala antes de cada bloco de estudo e reserve a matéria mais difícil para a faixa de 20 a 24 graus. A regra se chama zoneamento térmico do estudo: zonear (dividir o dia em faixas de uso) pela temperatura, e não pelo relógio.

A faixa não sai do nada. Em 2006, Olli Seppänen, William Fisk e Q. H. Lei, do Lawrence Berkeley National Laboratory, reuniram estudos de escritório e concluíram que o desempenho em tarefas mentais fica no topo perto de 22 graus e cai quando a sala esquenta além disso.

O mecanismo é físico. Para manter o corpo perto de 37 graus num ambiente quente, o organismo manda sangue para a pele e aumenta o suor. Sobra menos conforto para a tarefa que exige memória de trabalho (a capacidade de segurar várias informações na cabeça ao mesmo tempo).

Memória de trabalho é justamente o que uma questão de Raciocínio Lógico ou de cálculo de Contabilidade pede. A lei seca decorada sofre menos. A questão que exige montar três etapas de conta sofre mais.

Onde o calor se esconde

O candidato quase nunca sabe a temperatura da própria sala. Ele sente calor, liga o ventilador e segue. A sensação engana porque o corpo se acostuma em poucos minutos e para de reclamar.

Um termômetro digital de parede custa menos que uma apostila e mostra o número sem opinião. A leitura antes do bloco transforma a dúvida em dado: 23 graus libera a matéria pesada, 29 graus manda para a revisão.

“Uma onça de prevenção vale uma libra de cura.”

Benjamin Franklin, carta à Pennsylvania Gazette, 1735

Franklin escreveu a frase sobre incêndios na Filadélfia, defendendo cuidado com brasa solta dentro de casa. Vale para o quarto de estudo: arrumar a sala antes custa menos que recuperar a tarde perdida.

A técnica tem limites. Ela não esfria quarto nenhum sozinha e não substitui horas de estudo. Ela só impede que o conteúdo mais caro caia na hora mais quente.

Para quem mora em cidade que passa dos 30 graus o dia inteiro, a regra muda de forma: o zoneamento troca a tarde pela madrugada, a manhã cedo e o cômodo mais fresco da casa, e a seção prática mostra como.

 
 

II  O Dado

1 milhão de alunos e o termômetro de junho

Jisung Park publicou em 2022 no Journal of Human Resources que alunos de Nova York que fizeram a prova Regents a 32 graus, em vez de 22, tiveram cerca de 10% a menos de chance de aprovação na matéria.

O artigo se chama Hot Temperature and High-Stakes Performance (calor e desempenho em prova decisiva). Park fez o trabalho no doutorado em Harvard e hoje pesquisa na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

A base reuniu notas de alunos das escolas públicas da cidade ao longo de cerca de 12 anos letivos, somando milhões de provas. Cada prova trazia a data e o turno, e cada turno ganhou a temperatura medida na estação meteorológica mais próxima.

O desenho é limpo porque o calendário das Regents é fixo e definido pelo estado com meses de antecedência. Nenhum aluno escolhe fazer a prova no dia quente. O calor cai como um sorteio sobre a turma.

EstudoJisung Park, 2022
PublicaçãoJournal of Human Resources
Localescolas públicas de Nova York
Amostracerca de 1 milhão de alunos
Comparaçãoprova a 32 graus contra 22 graus
Resultadocerca de 10% a menos de chance de aprovação

Park comparou também o mesmo aluno em provas diferentes. Quem fez uma matéria num dia fresco e outra num dia quente rendeu pior na quente, o que afasta a explicação de que alunos fracos caíam por acaso nos dias de calor.

O efeito não parou na nota. Segundo Park, uma prova reprovada por causa do calor reduziu a chance de o aluno se formar no prazo, porque a Regents é condição para o diploma.

Um segundo trabalho ampliou a conta. Em 2020, Park, Joshua Goodman, Michael Hurwitz e Jonathan Smith publicaram no American Economic Journal: Economic Policy um estudo com notas do PSAT (prova preparatória para o vestibular americano) de cerca de 10 milhões de alunos.

Ali o calor atingiu o aprendizado do ano inteiro. Segundo os quatro autores, cada grau Fahrenheit a mais na média do ano letivo, sem ar-condicionado, reduziu em cerca de 1% o que o aluno aprendeu naquele ano. Nas escolas com ar-condicionado, a perda quase sumiu.

Os limites contam. Os dois estudos mediram estudantes do ensino médio americano, e não adultos que estudam para concurso. Ninguém publicou medição equivalente com candidatos brasileiros, então o zoneamento térmico é uma aplicação do mesmo mecanismo, sem teste direto em aprovação.

 

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III  Na Prática

A tarde quente em 4 passos

Passo 1, compre e posicione o termômetro: um termômetro digital na altura da mesa, longe da janela e do sol direto, para medir o ar que você respira enquanto estuda.

Passo 2, mapeie a semana em graus: durante 7 dias, anote a temperatura às 7h, às 14h e às 21h no cômodo onde você estuda e marque as faixas abaixo de 24 graus.

Passo 3, distribua as matérias pela faixa: cálculo, Raciocínio Lógico e questão discursiva ficam nas horas abaixo de 24 graus; revisão de lei seca e questões já resolvidas ficam nas horas quentes.

Passo 4, esfrie antes de sentar: feche a cortina da janela que pega sol uma hora antes do bloco, tome água gelada e coloque o ventilador apontado para o corpo, e não para o teto.

Um exemplo com Juliana, que estuda para analista do TRT e mora em Cuiabá, num apartamento de fundos com janela para o oeste. Ela estudava das 14h às 17h, logo depois do almoço, porque era a hora livre.

Com o termômetro, Juliana descobriu que a sala marcava 31 graus às 15h e 25 graus às 6h. Os exercícios de Contabilidade que abandonava na metade estavam caindo justamente no pico.

Ela passou Contabilidade para as 5h30 às 7h, antes do trabalho, e deixou a tarde para questões repetidas de Direito do Trabalho. Em duas semanas, os blocos de cálculo pararam de ficar pela metade.

Um tropeço comum é usar o calor como desculpa para cancelar o estudo da tarde. A tarde quente continua tendo bloco; muda o tipo de conteúdo que ela recebe.

Outro tropeço é confiar na sensação. Quem passa o dia num ambiente quente se acostuma e jura que está tudo bem com a sala em 30 graus. O número do termômetro resolve a discussão.

O treino tem uma vantagem extra para quem vai fazer prova em cidade quente e em prédio sem ar-condicionado. Resolver um simulado completo uma vez no calor, já perto da data, mostra quanto tempo a mais cada bloco de questões vai pedir.

“Qual é a temperatura do cômodo onde você resolve as questões mais difíceis?”

Confira na sala de estudo esta semana:

• a temperatura às 14h, em graus, anotada ao lado da mesa;

• a matéria de cálculo marcada numa hora abaixo de 24 graus;

• a cortina da janela que pega sol fechada uma hora antes do bloco.

 
 
 
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No estudo de 2022 sobre as provas Regents de Nova York, quanto caiu a chance de aprovação quando a prova foi feita a 32 graus em vez de 22?

ACerca de 3%
BCerca de 30%
CCerca de 10%
DCerca de 50%

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