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ED 026
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O gabarito que você lê sem explicar

Chi, Bassok, Lewis, Reimann e Glaser mediram em 1989 que quem explicava cada linha do exemplo resolvido acertava mais problemas novos.

Caderno quadriculado aberto com resolução manuscrita passo a passo, lápis apontado e xícara de café sob luz focal quente, fundo escuro, sem pessoas.

O gabarito lido em voz alta, linha a linha

 

Uma em 3. Era a chance de acertar a questão de direito administrativo depois de eliminar duas das cinco alternativas no chute, e o candidato tinha chegado nessa chance depois de ler o gabarito comentado de trinta questões parecidas na semana anterior.

A leitura tinha corrido bem. Cada resolução comentada fazia sentido linha por linha, nenhuma etapa parecia obscura, e a sensação ao fechar o caderno era de assunto entendido.

Essa sensação tem nome no orçamento de estudo: ela é o custo mais alto e o mais difícil de enxergar, porque não aparece como erro nenhum enquanto a folha ainda está em branco.

O que acontece na leitura de uma resolução pronta é uma sequência de reconhecimentos. Você lê a linha, ela combina com algo que já está na cabeça, e a cabeça devolve um sinal de familiaridade. O sinal é honesto sobre o texto e mentiroso sobre a sua capacidade de produzir aquela linha sozinho.

A prova nunca pede reconhecimento. Ela pede a produção da linha seguinte a partir de um enunciado inédito, com o gabarito guardado em um envelope lacrado do outro lado da sala.

Existe um gesto de dois segundos que separa quem lê de quem aprende no mesmo exemplo resolvido, e ele já apareceu medido em laboratório com estudantes de física.

O gesto não é reler, não é grifar e não é copiar a resolução no caderno. Ele é interromper a leitura a cada passo e responder duas perguntas em voz alta, antes de deixar o olho descer para a linha de baixo.

Quem faz isso lê menos exemplos por hora e transporta mais para a prova. Quem não faz termina a apostila inteira e trava na primeira questão que muda um dado do enunciado.

A técnica cabe em duas perguntas fixas, e a diferença entre elas e um grifo colorido é a diferença entre produzir e reconhecer.

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I  A Técnica

Duas perguntas por linha resolvida

Ler a resolução pronta produz reconhecimento; explicar cada passo produz o que a prova cobra.

Toda vez que uma linha do exemplo resolvido introduz um passo novo, pare e responda em voz alta por que aquele passo entrou e o que aconteceria sem ele. A técnica é a autoexplicação: transformar leitura passiva de resolução comentada em produção ativa de justificativa, passo a passo.

As duas perguntas são fixas e não mudam de matéria para matéria. Primeira: por que esta linha existe, qual regra, artigo ou fórmula autoriza o que acabou de ser feito. Segunda: o que mudaria no resultado se este passo fosse pulado ou trocado por outro.

A primeira pergunta força a recuperação da regra da memória, que é exatamente o trabalho que a prova cobra. A segunda constrói a fronteira da regra, o conjunto de situações em que ela se aplica e em que ela deixa de valer.

Repare no que fica de fora. Não é "entendi", não é "faz sentido", não é grifar a linha de amarelo. Todos esses três são registros de reconhecimento, e nenhum deles pede uma frase produzida por você.

Como executar no exemplo resolvido

Cubra a resolução e revele uma linha por vez. Uma folha de papel sobre o gabarito comentado, descendo linha a linha, muda o gesto físico do estudo e impede o olho de deslizar até o final da resolução antes da cabeça.

Fale a explicação em voz alta ou escreva em uma linha ao lado. A frase pensada por dentro passa por completa mesmo quando está pela metade; a frase dita ou escrita revela a lacuna na hora, porque a boca trava onde falta a regra.

"Bons estudantes geram muitas explicações que refinam e ampliam as condições das ações contidas na resolução do exemplo, e relacionam essas ações a princípios enunciados no texto."

> > Chi, Bassok, Lewis, Reimann e Glaser, Cognitive Science, 1989

Marque a lacuna e continue. Quando a explicação não sai, anote a linha em uma lista separada e siga o exemplo até o fim; a lista das linhas mudas é o índice de revisão mais honesto que existe no seu material.

Aceite o custo de tempo com os olhos abertos. Explicar cada passo faz você atravessar três exemplos onde antes atravessava dez, e a troca só compensa porque a apostila inteira lida no automático deixa a mesma quantidade de conteúdo produzível: quase nada.

A objeção previsível é a de quem estuda no ônibus e não pode falar sozinho. Nesse cenário, a versão escrita resolve: uma frase curta ao lado de cada passo, no celular ou na margem, com a mesma exigência de produzir palavra sua.

A medição que sustenta a técnica veio de dez estudantes de física e de um conjunto pequeno de exemplos resolvidos, e o desenho dela explica por que o efeito é do gesto e não do talento.

 
 

II  O Dado

Dez alunos e três exemplos de mecânica

Michelene Chi, Miriam Bassok, Matthew Lewis, Peter Reimann e Robert Glaser publicaram na Cognitive Science, em 1989, um estudo em que dez estudantes universitários estudaram exemplos resolvidos de mecânica falando em voz alta: os que mais explicavam cada passo para si mesmos resolveram uma proporção maior de problemas novos depois.

O desenho é enxuto de descrever. Os participantes primeiro liam o capítulo, depois estudavam exemplos resolvidos de física enquanto verbalizavam tudo que passava pela cabeça, e por fim resolviam problemas que não estavam no material estudado.

A verbalização era gravada e transcrita, e cada trecho foi classificado em categorias, entre elas a explicação genuína de um passo e a paráfrase, que apenas reescreve com outras palavras o que a linha já dizia.

EstudoMichelene Chi, Miriam Bassok, Matthew Lewis, Peter Reimann e Robert Glaser, Cognitive Science, 1989
Título originalSelf-Explanations: How Students Study and Use Examples in Learning to Solve Problems
Desenhodez estudantes universitários estudaram exemplos resolvidos de mecânica em protocolo verbal e depois resolveram problemas inéditos
Medidaquantidade e tipo de fala gerada por exemplo, comparada ao desempenho posterior em problemas novos
Efeito medidoo grupo de melhor desempenho gerou várias vezes mais explicações por exemplo do que o grupo de pior desempenho

A separação entre os dois grupos foi feita pelo desempenho nos problemas finais, e não por nota anterior ou por tempo de estudo. Olhando para trás, nas transcrições, o grupo de melhor desempenho tinha produzido bem mais explicação por exemplo, na casa de várias vezes o volume do outro grupo.

O grupo de pior desempenho não ficou calado. Ele falou, e falou parafraseando: repetiu a linha do livro com sinônimos, sem acrescentar a razão do passo nem a condição em que ele vale. Volume de fala não separou os grupos; tipo de fala separou.

Apareceu ainda uma diferença de monitoramento. Os alunos de melhor desempenho reconheciam com mais frequência que não tinham entendido um trecho, e voltavam nele; os de pior desempenho declaravam compreensão em pontos que depois não conseguiram usar.

Vale medir a promessa pelo que foi testado de fato. Dez participantes, uma matéria só, exemplos resolvidos de mecânica de um livro universitário: o estudo mostra a associação entre explicar e resolver, com amostra pequena, e não prova sozinho que a técnica dobra nota em qualquer concurso.

O que atravessa para a mesa do candidato é a distinção que o estudo tornou visível. Parafrasear uma resolução comentada e explicar a razão de cada passo produzem a mesma sensação de estudo e resultados diferentes na hora de resolver algo inédito, e só o segundo obriga você a produzir a frase.

 

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III  Na Prática

Onde encaixar a autoexplicação no dia

Passo 1, escolha o material certo para o gesto: a autoexplicação rende em resolução comentada, questão de banca com justificativa e jurisprudência aplicada a um caso, ou seja, material que mostra um raciocínio pronto. Lista de decorar e tabela de prazos pedem outra ferramenta.

Passo 2, aplique as duas perguntas linha a linha: cubra a resolução, revele um passo, responda por que ele existe e o que mudaria sem ele, e só então desça. Se a resposta demorar mais que meio minuto, a linha vai para a lista de lacunas e o exemplo continua.

Passo 3, feche com a resolução do zero: ao terminar o exemplo explicado, feche o material e resolva o mesmo problema em folha limpa, sem consultar nada. A distância entre o que você explicou e o que você produziu sozinho é a medida real do que ficou.

Comece por dois exemplos por sessão, não por dez. O gesto é mais lento que a leitura corrida e cansa mais, e a tentação de voltar para o modo antigo aparece no terceiro exemplo, com o argumento de que assim rende mais.

Prefira o exemplo difícil ao exemplo fácil. Explicar um passo que você já dominava consome tempo e não abre fronteira nenhuma; explicar o passo em que a resolução dá um salto é onde a técnica paga o preço que cobra.

Deixe a lista de lacunas na frente do próximo bloco. Ela substitui com vantagem qualquer resumo colorido, porque foi construída pelo que você não conseguiu dizer, e não pelo que você achou importante enquanto lia.

Cuidado com a autoexplicação de fachada. Dizer "aqui ele aplicou a regra" é paráfrase com voz alta; a explicação começa quando a frase nomeia a regra, diz por que ela cabe naquele caso e o que aconteceria se o caso fosse ligeiramente outro.

Julgue o método pela questão inédita, nunca pelo número de páginas cobertas. Um caderno de trinta exemplos lidos e um caderno de oito exemplos explicados produzem folhas de resposta muito diferentes, e a única prova disso está no seu próximo simulado sem consulta.

"Qual foi a última resolução comentada que você conseguiu reproduzir sozinho, sem olhar, no dia seguinte?"

Confira hoje, no seu próprio material:

quantos exemplos resolvidos você leu na última semana sem escrever uma frase sua ao lado de nenhum passo;

quantas linhas entraram na sua lista de lacunas no último bloco de estudo;

quantos minutos você levou para refazer do zero o último exemplo que julgou entendido.

 
 
 

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Quiz da edição

No estudo de Chi, Bassok, Lewis, Reimann e Glaser publicado na Cognitive Science em 1989, quantos estudantes universitários participaram, estudando exemplos resolvidos de mecânica em voz alta?

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B10
C20
D30

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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